Cultura

Adriana Calcanhotto lança cd marcado pelo minimalismo da urgência

Por Marcus Alves “O que temos são janelas”. Um dos versos cantados por Adriana Calcanhotto em seu mais recente trabalho musical. “Só”, feito na maçaroca do isolamento social motivado pela pandemia do Covid-19, está marcado, claro, por elementos sonoros e poéticos da solidão e de alguma melancolia. Mas não é uma peça triste. Diria que carrega um minimalismo da urgência, como tudo o que estamos vivendo enquanto experiência social nestes meses. O disco tem elementos do passado, sem ser passadista – e isso já é indicado em sua própria capa: uma foto de antiga máquina de escrever, com sua clássica […]

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Por Marcus Alves

“O que temos são janelas”. Um dos versos cantados por Adriana Calcanhotto em seu mais recente trabalho musical. “Só”, feito na maçaroca do isolamento social motivado pela pandemia do Covid-19, está marcado, claro, por elementos sonoros e poéticos da solidão e de alguma melancolia. Mas não é uma peça triste.

Diria que carrega um minimalismo da urgência, como tudo o que estamos vivendo enquanto experiência social nestes meses. O disco tem elementos do passado, sem ser passadista – e isso já é indicado em sua própria capa: uma foto de antiga máquina de escrever, com sua clássica fita em preto e vermelho.

Por uma economia forçada de símbolos, sinais e tecnologias, o clipão de “Só” nos remete a muitos videoclipes de bandas e cantores dos anos de 1980 – com presença marcante de objetos do cotidiano e efeitos de luz. A sonoridade dialoga com toda a história de Adriana, com direito a um funk da quarentena.

Tem elementos de funk e de samba, o cd lançado na madrugada desta sexta-feira (29). E a cantora, na maior parte do tempo do clipão aparece usando sempre roupa branca, lembra, de algum modo, movimentos da estética corporal de Laurie Anderson e do minimalismo hospitalar de Yoko Ono em uma de suas instalações.

Esse passado também surge em músicas que lembram “Marítimo” (1998) e “Senhas”  (1992).  Este último criado, como a própria cantora falou em uma entrevista, no ambiente da solidão. Mas, a grande diferença entre o passado e o presente está no aspecto da ausência de liberdade. Quer dizer: uma coisa é um artista manter-se em solidão voluntária para alavancar uma criação qualquer. Outra, é esta solidão atual motivada por uma pandemia do Covid-19 que retira vidas todo dia, toda hora.

O cd “Só” indica também como cada artista mantém seu processo criativo frente o isolamento. Alguns avançam e mostram seus “defeitos de fabricação”, como diria Tom Zé.  Outros paralisam. Uns tantos fazem lives. Uns escrevem ou silenciam com as palavras e os pincéis. O esforço é para se manter dentro de uma esfera criativa em um mundo no qual só sobram janelas e quintais como espaços de mobilidade e de vida – no desejo de um dia vagar pelas ruas da cidade.

Imagem: capa do cd Só/Reprodução

O tempo, o vento e o vírus

Por Marcus Alves   Aprendi escutando a banda paulista Mercenárias, composta só por mulheres, um fragmento de poema que vem sempre à minha cabeça: “nunca a águia perdeu tanto tempo, como quando quis aprender com o corvo”. É, na verdade, um verso de um poema grandioso de William Blake intitulado Provérbios do Inferno, que o punk rock provocativo dos anos 1980 traduzia e amplificava para todos nós. Esse universo Blake-punk retornou à minha memória a partir de uma conversa remota que mantive com o jornalista e escritor Helder Moura. Falávamos do tempo ou da ilusão de termos tempo durante esse […]

Angelus Novus Paul Klee

Por Marcus Alves

 

Aprendi escutando a banda paulista Mercenárias, composta só por mulheres, um fragmento de poema que vem sempre à minha cabeça: “nunca a águia perdeu tanto tempo, como quando quis aprender com o corvo”. É, na verdade, um verso de um poema grandioso de William Blake intitulado Provérbios do Inferno, que o punk rock provocativo dos anos 1980 traduzia e amplificava para todos nós. Esse universo Blake-punk retornou à minha memória a partir de uma conversa remota que mantive com o jornalista e escritor Helder Moura.

Falávamos do tempo ou da ilusão de termos tempo durante esse isolamento social motivado pela pandemia do Covid-19. Ele comentava que a gente sempre procurou ter tempo livre para escrever e agora que o temos, não conseguimos porque a angústia e o temor da morte que sorri na esquina nos paralisam.

Da minha parte traduzi isso da seguinte maneira: amigo, esse tempo não é livre. O tempo, assim como ele se nos apresenta nessa experiência social de agora, é uma prisão.  É um tempo que nos foi roubado e participamos de uma armadilha que está muito além do que a sociologia da Escola de Frankfurt nos ensinou.

No pensamento crítico de T. W. Adorno o tempo livre do trabalhador é sequestrado pela indústria da cultura que o transforma em recurso primeiro para o consumismo.  O tempo, nesse sentido, era objetivado nas coisas que consumimos e que nos esgotam. Nos levava a um sentimento de quase êxtase e de falsa ideia de descanso.

A experiência de agora cria uma nova dobra do tempo. Daí que a vivenciamos como sendo recheada de puro cansaço e angustia paralisantes. O tempo, o vento e o vírus que nos açoitam não permitem o prazer do instante. O instante que se esgota num aqui e agora, no carpe diem de um poema, do pôr do sol, do abraço amigo, do olhar cuidadoso da amada.

É um tempo selvagem. Um momento que nos obriga a darmos um salto para o simbólico para não morrermos na escassez do nosso ar. No pós- pandemia talvez a gente tenha que reinventar a nossa própria noção de tempo e de história – emprenhados pela visão de história que Walter Benjamin construiu da história a partir do Angelus Novus de Paul Klee.

O Anjo de Klee, como nos ensinou Benjamin, estava na fronteira entre o passado e o futuro. Empurrado por uma tempestade de poeira, ele nos força a olhar o futuro e nos mantém presos ao passado, à tradição que precisamos sempre romper e restaurar. Benjamin nos ajuda, a partir da obra de Klee, a reinventar a tradição.

Mas tudo isso estava apegado ao modelo da própria modernidade com suas crenças no progresso e no futuro. Fortes esperanças. O tempo aí era uma interface entre a tempestade que se aproximava e os primeiros raios de sol que poderiam alumiar a vida e a morte.

Hoje o tempo se traduz menos como esse movimento de semi-paralisia do Angelus Novus e sua tempestade. É um tempo que nasce morto, sabe Helder? Um tempo aprisionado, sabe Benjamin? Um tempo perdido… sabe Blake?  O tempo, o vento e o vírus que nos assombram ameaçam a nossa esperança. É disso que devemos cuidar, a isso devemos nos dedicar enquanto conduzimos nosso arado sobre os ossos dos mortos, como diria o próprio Blake.

 

Dedicado ao amigo Helder Moura

Imagem: Angelus Novus, de Klee

Regina Duarte volta a culpar imprensa e “classe” artística

Por Marcus Alves   A atriz Regina Duarte voltou a se expressar publicamente nesta sexta-feira (22).  O seu novo discurso veio por meio de um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, o famoso “Estadão”. Apareceu mais centrada, como é próprio da linguagem escrita. Acabou, no entanto, reafirmando muita coisa do que já havia dito antes. Primeiro a atriz afirma sua consciência de que seria “alvo de críticas” ao aceitar o convite do presidente da República para ocupar a Secretaria Especial da Cultura. Regina coloca sempre a culpa no Outro, ora na imprensa, ora na classe artística. Nesse […]

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Por Marcus Alves

 

A atriz Regina Duarte voltou a se expressar publicamente nesta sexta-feira (22).  O seu novo discurso veio por meio de um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, o famoso “Estadão”. Apareceu mais centrada, como é próprio da linguagem escrita. Acabou, no entanto, reafirmando muita coisa do que já havia dito antes.

Primeiro a atriz afirma sua consciência de que seria “alvo de críticas” ao aceitar o convite do presidente da República para ocupar a Secretaria Especial da Cultura. Regina coloca sempre a culpa no Outro, ora na imprensa, ora na classe artística.

Nesse sentido repete a tendência incrustada na elite política brasileira que sempre se diz perseguida. Estamos cansados de ver esse filme velho de lideranças com seus discursos de vítimas. São sempre vítimas da Justiça, da Polícia Federal e de demais órgãos de controle. Quando denunciados por ações de corrupção são vítimas. Ao serem criticados por ações ou omissões na gestão da coisa públicas são vítimas.

No seu artigo Regina Duarte se diz espantada com “a total ausência de substância das sentenças condenatórias que me dirigem na praça pública das redes sociais – esse potente megafone usado por grupos organizados dentro e fora da classe artística”.  Também fala que não se viu no centro de um debate entorno da relevância de uma política pública voltada para as artes.

O artigo da atriz nos alerta mais uma vez como Brasil sofre hoje por uma total falta de reflexividade. As marcas do seu discurso indicam esse caminho. Ela era, enquanto Secretária de Cultura, a principal responsável para pontuar essa política pública. Não o faz e joga para um Outro imaginado a responsabilidade por sua omissão.

O fato, por ela observado, de que há mais de meio século é uma pessoa dedicada às artes e à dramaturgia brasileira não a exime de culpa. Ali não estava em jogo a sua capacidade de interpretar personagens, mas sua vontade de, saindo do teatro, pensar formas de estimulo às artes plásticas, à literatura, à música, ao cinema, às culturas populares e toda a diversidade e multiplicidade das linguagens da nossa gente.

Mas o que move meu interesse em comentar este primeiro artigo da ex-secretária não é a periferia dos seus argumentos contra a infodemia (neologismo inventado por quem deseja o controle da imprensa). O meu motivo é sua afirmação: “o País precisa de uma política cultural que transcenda ideologias”.

Isso simplesmente é impossível. Aqui ou em qualquer lugar do mundo, dado que a ideologia não é uma roupa velha que o gestor-público larga em seu guarda-roupa luxuoso antes de ir ao encontro com o objeto que administra ou gerencia. O ser humano nessa condição (gestor) deve controlar seu gosto pessoal, sua subjetividade e fazer avançar ações que possam valorizar, de forma impessoal, as manifestações culturais e artísticas de uma coletividade.

Dizendo de outro modo: o gestor pode não gostar de um determinado estilo de música ou gênero literário, por exemplo. Está no seu direito. Mas a sua condição pública o obriga a cuidar, preservar ou estimular uma multiplicidade e variedade de estilos ou fenômenos culturais. Mas Regina Duarte, na situação de secretária de cultura ou de atriz, não teria condição de vislumbrar esse conjunto de situações. Daí que prefere culpar imprensa e “classe artística” pelo que não fez.

Crédito: Reprodução/Internet

Educação e Covid-19: desafio para escolas e famílias

  Por Marcus Alves O jornalista e colunista social Anchieta Maia tem feito sucessivas consultas por meio de sua página no facebook sobre como os pais estão avaliando o ensino à distância no contexto da Paraíba. Sua intenção é justa e tenta acompanhar as impressões das famílias em torno de um tema da ordem do dia, neste período de pandemia Covid-19 e isolamento social. Vi alguns comentários que no geral mostram a adesão e boa avaliação das famílias, mas também muitos problemas e dificuldades. Todos foram pegos de surpresa com a necessidade de migração do sistema educativo; nem escolas, nem […]

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Por Marcus Alves

O jornalista e colunista social Anchieta Maia tem feito sucessivas consultas por meio de sua página no facebook sobre como os pais estão avaliando o ensino à distância no contexto da Paraíba. Sua intenção é justa e tenta acompanhar as impressões das famílias em torno de um tema da ordem do dia, neste período de pandemia Covid-19 e isolamento social. Vi alguns comentários que no geral mostram a adesão e boa avaliação das famílias, mas também muitos problemas e dificuldades.

Todos foram pegos de surpresa com a necessidade de migração do sistema educativo; nem escolas, nem famílias – muito menos os governos – estavam preparados para essa novidade, ainda que a educação à distância tenha entrado na agenda geral da sociedade já há várias décadas.

O modelo esteve presente na sociedade como uma alternativa, como uma possibilidade e – não nos assustemos – como uma matriz reservada talvez para as classes sociais mais pobres cujos filhos poderiam acessar, já em um nível de ensino superior, alguma faculdade após constatar que o ensino público federal não acolhe todos com as mesmas oportunidades.  Agora é algo obrigatório, motivado pelo Covid-19, e colocado de forma transversal para todas as séries – da creche à Universidade, passando pelo ensino fundamental e médio.

Aí começamos a descobrir os problemas do modelo, suas consequências, seus desdobramentos e limites. A educação à distância, além das ferramentas técnicas e canais de distribuição das mensagens, pressupõe um maior domínio de metodologias que precisam ser renovadas. Neste campo, a educação não pode apenas reproduzir métodos tradicionais usados secularmente no ambiente escolar.

O aluno, sobretudo, em idades menores do ensino fundamental, precisa ter estímulos variados frente à tela do computador e, muitos pais relatam suas dificuldades para manterem a disciplina e atenção da criança.

É uma aula. Não é um vídeo ou desenho animado que a criança pode ver descompromissada. Um vídeo do Netflix ou de qualquer operadora de TV está ali, sempre presente,  e o menino ou menina vê de forma difusa (enquanto monta uma arquitetura de prédio, brinca com um boneco do MacDonald ou faz um lanche). A aula necessita ter variados elementos lúdicos e interativos. Isso tudo demanda um esforço muito maior dos docentes que se esmeram no cuidado da fala, na apresentação da imagem e no esforço de focar essa atenção infantil.

Os conteúdos necessitam ser igualmente pensados e aqui temos um problema realmente grande uma vez que os conteúdos atuais foram todos concebidos para uma educação presencial. Hoje tenho observado que as escolas estão adaptando em uma tentativa de manter o compromisso educacional e não prejudicar o ano letivo dos alunos.

Outra faceta que a migração educativa provocou é em relação a contribuição das famílias. Estas precisam estar mais presentes e atuantes, sobretudo os pais de crianças menores. Um adolescente de 13 a 17 anos tem condições muitos mais adequadas para gerenciar o sistema ou a plataforma que sua escola usa no processo. No caso das crianças, entre 6 e 10 anos, os país são a fonte de alimentação desse sistema com a colocação de tarefas e o gerenciamento de outras demandas pedagógicas.

Além disso os pais também precisam ficar atentos ao próprio procedimento das aulas, a regulação de um aparato tecnológico antes não demandado e da mesma forma fazer um maior acompanhamento sistemático das tarefas diárias. Isso implica uma energia a mais para as famílias, desde o cuidar do ambiente da sala de aula (agora realizada no quarto, num terraço de casa ou escritório) até a interferência em ruídos extra sala de aula (barulhos de carros, som de vizinho, cachorro e outras variáveis).

A educação à distância, nesse sentido, está sendo um desafio para escolas, profissionais da educação e famílias. O isolamento social promovido pela pandemia da Covid-19 vem mostrando que a sociedade brasileira, e a paraibana, não tinham a menor consciência do que esse modelo realmente exige.

Editora libera e-book sobre processo de Bolsonaro

Seguidores do presidente Bolsonaro enfrentam os defensores do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro nas redes sociais. Os dois lados têm agora uma nova ferramenta para duelar: é que a editora Todavia liberou gratuitamente o acesso ao livro “O Cadete e o Capitão”, escrito pelo jornalista Luiz Maklouf. O e-book fica disponível até este domingo (26). A  obra revive o processo judicial a que Bolsonaro respondeu no final da década de 1980. Ele era acusado de explodir bombas em unidades militares e acabou sendo absolvido em junho de 1988. O e-book pode ser acessado nas plataformas da Amazon Kindle, Apple Books, […]

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Seguidores do presidente Bolsonaro enfrentam os defensores do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro nas redes sociais. Os dois lados têm agora uma nova ferramenta para duelar: é que a editora Todavia liberou gratuitamente o acesso ao livro “O Cadete e o Capitão”, escrito pelo jornalista Luiz Maklouf. O e-book fica disponível até este domingo (26).

A  obra revive o processo judicial a que Bolsonaro respondeu no final da década de 1980. Ele era acusado de explodir bombas em unidades militares e acabou sendo absolvido em junho de 1988. O e-book pode ser acessado nas plataformas da Amazon Kindle, Apple Books, Google Play e Kobo.

 

A União, o jornal impresso e a palurdice das ruas

Em mais um final de semana de pandemia e isolamento social por conta do coronavírus, somos levados a refletir sobre os destinos do jornal A União. O primeiro fato que nos leva a isso: três importantes personalidades do nosso mundo intelectual e jornalístico foram dispensadas de publicarem suas crônicas no jornal. O segundo: um outro jornalista aproveitou o momento e pediu que o próprio jornal  A União fechasse suas portas. Os dois casos precisam ser pensados à luz de uma reflexão maior, mais extensiva. Para isso será necessário retomar algo do passado recente e identificar o estado de arte do […]

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Em mais um final de semana de pandemia e isolamento social por conta do coronavírus, somos levados a refletir sobre os destinos do jornal A União. O primeiro fato que nos leva a isso: três importantes personalidades do nosso mundo intelectual e jornalístico foram dispensadas de publicarem suas crônicas no jornal. O segundo: um outro jornalista aproveitou o momento e pediu que o próprio jornal  A União fechasse suas portas.

Os dois casos precisam ser pensados à luz de uma reflexão maior, mais extensiva. Para isso será necessário retomar algo do passado recente e identificar o estado de arte do nosso próprio modo de encarar o jornal e o jornalismo.

Existe um razoável consenso da crise destes dois modos de fazer uma comunicação pública. Mas estamos errando no jeito de enfrentar possíveis soluções, que não são fáceis. Muitos bons jornais estão pensando tais alternativas. Há alguns anos acompanhei o problema a partir de questionamentos do Le Monde, na França e como a direção daquele jornal e a própria redação procuravam maneiras de sobreviver e avançar.

Me parece que a solução deles não foi pela porta mais fácil:  o fechamento. O apagar das luzes dos grandes jornais como Le Monde, Folha, The New York Times, Estadão ou o Globo foi retardado por uma política de intensificação de dois tipos de esforços.

A primeira ação foi no sentido de procurar uma especificidade para o jornal impresso, que escapasse do mimetismo e da velocidade promovidas pelos veículos digitais. Apostou-se em um trabalho voltado à interpretação, à análise dos fatos, colada à investigação. Aquilo que os meios digitais não conseguiam garantir ao leitor, o impresso deveria ofertar.

A segunda, diretamente associada à primeira, foi investir na qualificação dos seus profissionais apostando na qualidade dos seus textos. Estes grandes veículos não se renderam a onda e não fecharam. Foram se reinventar.

Estão criando cultura nova e híbrida do jornalismo que articula o mundo digital e o impresso, um suportando o outro. Faz sentido se olharmos os números, que muitos defensores da existência exclusiva da comunicação digital não estão vendo: dados do Centro de Pesquisas Pew, em Washington, indicam que a maior fatia de toda verba publicitária investida na indústria da comunicação (e do jornalismo) foram parar em cinco empresas: Google, Facebook, Yahoo, Microsoft e Twitter. As cinco abocanharam quase dois terços dos 60 bilhões de dólares  – mais de R$ 190 bilhões – em publicidade digital (65%).

Os dados são tratados por Peter Preston, colunista do Guardian e do Observer, em um artigo no qual mostra as armadilhas do mundo digital da comunicação e sugere a vitória do modelo Le Monde.

O dano da vida em estado mínimo

Alguns dos meus poucos leitores podem contra argumentar que estou falando de grandes empresas jornalísticas. Não aplicariam meus argumentos para jornais locais, muito menos para um jornal da esfera estatal como A União. É exatamente aonde quero chegar e mostrar o que de verdade tem me incomodado nos últimos anos.

Estamos nos acostumando muito facilmente a querer o mínimo das coisas. Quando as redações brasileiras começaram a sofrer o impacto da informatização, terceirizaram os jornalistas. Conheci muitos que aceitaram ser demitidos e abrir sua empresa, na ilusão que um dia seriam empresários da comunicação. Na sequência foram minimizando cada vez mais as nossas formas de vida.

A linguagem precisava ser mínima. O texto mínimo. O Estado mínimo. A educação mínima. A mínima cultura. Nos acostumamos as seguir roteiros estabelecidos por lideranças mínimas. Essa cultura nos levou à situação atual: sobrevivendo sempre do mínimo e alguns se esforçando para enfrentar os minions bárbaros nas ruas e nas esferas digitais.

A ignorância das ruas foi pré-construída pela desinformação, pela incapacidade de ler um texto jornalístico, uma crônica delicada. A palurdice das esquinas foi inventada antes pela ausência de uma cultura estética, que afastou uma multidão de brasileiros dos museus, das galerias e os fez crer somente na sonoridade do movimento das bundas (desculpem a expressão). O jornal impresso era, em grande parte, um instrumento de amenização do dano desse comportamento, em parte por sua linguagem referencial, que nos obrigava a conexão com o mundo real, concreto a exigir uma dose de humanidade, de criatividade e de invenção.

Quando o jornal e o jornalismo diminuem acrescentamos mais um tijolo nesse processo de infantilização e barbarização das culturas brasileiras e mundiais. Dito isto, vou finalizando apostando em numa reflexão. Talvez a pergunta do momento não seja fechar ou não fechar o Jornal A União.  O problema é: como um jornal mantido por verbas públicas pode criar instrumentos que sejam capazes de ajudar – a ênfase aqui é no ajudar – a diminuir nossa pobreza intelectual e acrescentar algo à esfera pública da educação e da cultura?

Dizendo de outro modo e na linha do Le Monde, da Folha ou do Times: como um pequeno jornal local pode ter algo que seja só seu, sua especificidade, e que construa valores para seu povo e seus leitores?

Por Marcus Alves

Imagem: O peixe fora d´água – desenho de Antônio Valentim

Eu queria ser Rubem Alves

Eu desejei muito ser Rubem Alves. Lia seus textos e ficava maravilhado por uma capacidade única do domínio das palavras. Era leve. Era denso. Tinha conteúdo e uma graciosidade capaz de nos fazer sorrir silencioso. Sempre me lembro de seus escritos e estes dias me deparei com um que me conectou muito  ao nosso tempo presente. Falava sobre seu desejo de ser médico. Está no livro “Ostra feliz não faz pérola”. O próprio título dessa obra guarda uma sabedoria única. Mas lá, nas lembranças daquele Alves, aparece uma sugestão do médico como um Sherlock Holmes: “valendo-se de pistas mínimas, o […]

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Eu desejei muito ser Rubem Alves. Lia seus textos e ficava maravilhado por uma capacidade única do domínio das palavras. Era leve. Era denso. Tinha conteúdo e uma graciosidade capaz de nos fazer sorrir silencioso. Sempre me lembro de seus escritos e estes dias me deparei com um que me conectou muito  ao nosso tempo presente.

Falava sobre seu desejo de ser médico. Está no livro “Ostra feliz não faz pérola”. O próprio título dessa obra guarda uma sabedoria única. Mas lá, nas lembranças daquele Alves, aparece uma sugestão do médico como um Sherlock Holmes: “valendo-se de pistas mínimas, o médico tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente”.

Mas os médicos que povoavam o imaginário do escritor já não cabem nos dias de hoje. Ele representava o médico como herói solitário que atendia unha encravada, caxumba, furúnculo, tosse de cachorro e outros males que já não amedrontam tanto o cidadão comum. Talvez essas doenças e a própria medicina apareçam mais como uma fotografia na parede. Uma memória que nos lembra a nossa própria humanidade.

O perfil do médico de hoje é muito diferente do passado porque a sociedade é fruto de uma continua e interminável onda de mudanças. As doenças também mudam e a pandemia do coronavírus está aí para nos assombrar e nos advertir. O Brasil está aprendendo a lidar com o vírus. Principalmente vai precisar se reeducar para o novo convívio social após esse isolamento imposto por este novo mal global.

Mas uma coisa é certa e isso Alves  ensinou: o médico continua aqui, na esquina, nos novos e velhos hospitais. Continua aqui com a sua característica mais forte: combinar o saber, o conhecimento técnico, e o amor. Sigo o raciocínio do nosso autor: a alma do médico se encontra no amor.

É preciso muita sensibilidade para ser médico, também nos ensina o coronavírus. Rubem Alves queria ser médico. De algum modo o foi. Como eu queria ser Rubem Alves.

Marcus Alves

Arte: Juliana Alves  XuKuru- Aquarela/sem título – 2019

A Travessia do caminho de pedras no tempo do coronavírus

Há quase sete dias não consigo escrever uma palavra. Fico à procura da letra certa, de uma combinação alfabética que possa revelar este momento pelo qual nossa vida passa. Olho à janela da minha sala e vejo papoulas floridas e uma trepadeira se agiganta sob nosso telhado no outono que se aproxima. Uma tartaruga se desloca lenta e passivamente debaixo do carro parado na garagem natural. E passarinhos cantam e picam sementes espalhadas na grama.. Mangas e laranjas envelhecem sobre a mesa de madeira. Eu envelheço. Não consigo expressar meu sentimento de agora. Um vazio parece tomar conta do meu […]

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Há quase sete dias não consigo escrever uma palavra. Fico à procura da letra certa, de uma combinação alfabética que possa revelar este momento pelo qual nossa vida passa. Olho à janela da minha sala e vejo papoulas floridas e uma trepadeira se agiganta sob nosso telhado no outono que se aproxima. Uma tartaruga se desloca lenta e passivamente debaixo do carro parado na garagem natural. E passarinhos cantam e picam sementes espalhadas na grama.. Mangas e laranjas envelhecem sobre a mesa de madeira. Eu envelheço. Não consigo expressar meu sentimento de agora. Um vazio parece tomar conta do meu corpo e fico esperando a coisa chegar. Coisa – assim mesmo, simples e seca. Uso-a, lembrando de memória, uma obra de Jean Paul Sartre, com a qual tive um encontro ainda na adolescência em Jaguaribe.

É algo indescritível que se apodera do nosso ambiente, do nosso ser. Invade o universo e não nos promete nada, a não ser a ameaça de aparecer a qualquer instante. Assim, sem aviso prévio, transforma o dia em noite. Esperança vira medo e assombração. Não sou muito católico, ainda que várias pessoas encontrem forte influência de Pascal em alguns dos meus poemas, mas tento viver sob o signo da esperança e do amor segundo Santo Agostinho – e espero um instante melhor para vida brasileira. E, como nos ensina a Torá, o que desejamos para cada um de nós, assim desejamos para a humanidade.

Com esta ideia numa manhã de domingo, após uma noite de angústia e apreensão, abri a janela da minha sala na praia de Carapibus – ainda uma pequena ilha onde restauro minhas energias para novas invenções da vida. A cena que descrevi acima deu algum conforto provisório ao meu corpo e à minha mente cansada. E na sequência do meu dia acerquei-me de uma xícara verde,  com a qual tomo minhas doses diárias de café há quase exatos 21 anos – desde que a ganhei de presente ainda em Brasília.

É uma relíquia, entre algumas que preservo, que serve de riso para os meus filhos. Como um ser humano pode preservar uma xícara de café por tanto tempo? A essa pergunta nunca respondo e passo da sala ao escritório onde meu olhar procura alguma obra de literatura, de filosofia ou sociologia que possa confortar os aperreios dos meus dias.

Meu olhar me arrasta logo para a coleção de Walter Benjamin e mira na sequência Hannah Arendt. Aparece à esquerda um Maffesoli, um Giddens e desvio o foco para a literatura. Laurence Sterne dorme ladeado por Machado de Assis. De Alencar salto para Mário de Andrade e os demais modernistas. Abraço Drummond, João Cabral e Chico Alvim está logo ali, com Maria Angela e Ana Cristina Cesar.

Na prateleira de baixo navego com Maiakovski, Alberto Moravia, Sartre, André Gide e Camus. Me volto para James Joyce e Rainer Maria Rilke sorri junto com Yeats. Fico quieto e passivo. O silêncio de todos eles me incomoda. Meu café esfria e exaspero. Não consigo encontrar uma palavra, um conforto entre tantos autores que sempre me acompanharam em tantos lugares, em momentos felizes ou de alta melancolia.

Em meu exílio forçado destes dias não tenho palavras. É isso, penso inquieto. Mas enquanto volto à cafeteira atravessando um corredor cheio de obras de arte vejo a janela ainda aberta. Restauro o café na minha xícara envelhecida pelos anos e me lembro que é preciso fazer uma travessia. Travessia, talvez seja a palavra –  pois meu caminho é de pedra e ainda posso seguir, como me lembra Milton, o Nascimento.

Marcus Alves

Imagem: desenho de Antônio Valentim, 7 anos.

Músico Marcos Rosa abre temporada de 10 anos do projeto Violadas

Escutava a gaita suave de Gabriel Grossi e Hermeto Pascoal (ao piano) quando vi uma mensagem no WhatsApp. Era outro músico, o Bruno Marinheiro, falando que estava me enviando o convite para a primeira edição do projeto Violadas. Deixei um pouco de lado o Gabriel, meu ex-aluno, e Hermeto a quem conheci no Clube do Choro em Brasília. Voltei minha atenção a Bruno Marinheiro, músico excelente que me presentou com  uma apresentação no Buarque-se Café no lançamento do meu livro “K Encontra Paludes”.   Em sua mensagem ele me contou que a primeira edição 2020 do projeto Violadas vai contar […]

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Escutava a gaita suave de Gabriel Grossi e Hermeto Pascoal (ao piano) quando vi uma mensagem no WhatsApp. Era outro músico, o Bruno Marinheiro, falando que estava me enviando o convite para a primeira edição do projeto Violadas. Deixei um pouco de lado o Gabriel, meu ex-aluno, e Hermeto a quem conheci no Clube do Choro em Brasília. Voltei minha atenção a Bruno Marinheiro, músico excelente que me presentou com  uma apresentação no Buarque-se Café no lançamento do meu livro “K Encontra Paludes”.

 

Em sua mensagem ele me contou que a primeira edição 2020 do projeto Violadas vai contar com a apresentação do guitarrista e violonista Marcos Rosa. Este ano serão comemorados os 10 anos do Violada, mantido pelo coletivo PaVio, que se consolidou com movimento capaz de manter a força da produção artística da viola, do violão e da guitarra na Paraíba.

 

Não é coisa fácil que consegue realizar este grupo, composto por Bruno Marinheiro, Cristall Hannah, produtora, e Albergio Diniz, professor de Violão do Departamento de Música da UFPB.

Marcos Rosa é doutor em Performance de Jazz e Música Comercial (Guitarra Elétrica), pela Five Towns College (Nova Iorque – EUA). Trata-se, portanto, de um músico que tem uma trajetória acadêmica com ampla experiência como intérprete. Acompanhou musicais na Broadway e diversos artistas. Dialoga, assim, com vários mundos – de Joe Carbone & Wendy Lanter, Haley Kallenberg aos Nonatos, Glaucia Lima e Orquestra de Violões da Paraíba.

Sua performance promete boa música no dia 18 de março, às 20h30, no Centro Cultural Energisa, em João Pessoa. E o projeto Violadas, me parece, continuará dando vida aos usos da viola no Brasil, cujas experiências nos remete aos séculos XVI, XVII e XVIII.

Marcus Alves debate “Pai Patrão” no Centro Dante Alighieri

O Centro Cultural Dante Alighieri de João Pessoa realiza palestra com o escritor e sociólogo Marcus Alves nesta sexta-feira (8), às 19h30. A informação é do presidente do Centro Dante, Normando Perazzo. Ele comentou que Marcus Alves discutirá com os descedentes de italianos, e os amantes da cultura, a literatura da Itália a partir do romance de Gavino Ledda, “Pai Patrão”. Natural da região da Sardenha, Gavino Ledda, escreve Pai Patrão em 1975. Trata-se de uma obra autobiográfica na qual ele narra sua trajetória quando aos seis anos de idade foi retirado à força da escola por seu pai e […]

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O Centro Cultural Dante Alighieri de João Pessoa realiza palestra com o escritor e sociólogo Marcus Alves nesta sexta-feira (8), às 19h30. A informação é do presidente do Centro Dante, Normando Perazzo. Ele comentou que Marcus Alves discutirá com os descedentes de italianos, e os amantes da cultura, a literatura da Itália a partir do romance de Gavino Ledda, “Pai Patrão”.

Natural da região da Sardenha, Gavino Ledda, escreve Pai Patrão em 1975. Trata-se de uma obra autobiográfica na qual ele narra sua trajetória quando aos seis anos de idade foi retirado à força da escola por seu pai e levado para ser pastor de ovelhas. O livro, que virou filme homônimo realizado pelos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, é considerado uma obra de referência na literatura realista italiana.

Normando Perrazo informou que a palestra de Marcus Alves tem como título “Experiência e conhecimento na literatura de Gavino Ledda”. Marcus Alves, autor da novela “K Encontra Paludes” (Ed. Cartonera) comentou que o livro de Gavino Ledda está inscrito numa tradição da literatura realista e que pode dialogar com uma longa tradição da literatura europeia e brasileira que inclui autores como Émile Zola, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

“Mas Pai Patrão carrega uma simbólica dupla nesse ambiente realista: além de ser uma narrativa marcada pela objetividade, clareza de linguagem e contenção emocional (marcas do realismo) é também um romance autobiográfico. Vou recortar alguns fragmentos da narrativa realista de Gavino Ledda, me apoiando no desejo de mostrar as aproximações e diferenças entre experiência e conhecimento”, acrescentou Marcus Alves.

O livro Pai Patrão, de acordo com ele, nos ajuda a compreender, a partir de uma arqueologia da infância, como a literatura pode integrar a vivência (experiência) com o processo de conhecimento na formação de um Ser humano.  “É uma narrativa permeada de violências promovidas por um pai, caracterizado pelo autor como um homem bruto, selvagem e quase uma pedra”, acrescentou.

Marcus Alves comentou ainda que a obra de Gavino Ledda participa de uma rica experiência literária italiana que pode envolver desde a Divina Comédia, de Dante, às lições de vida do Decameron, de Boccaccio. “Nessa linhagem não podemos esquecer obras fortes, modernas e pós-modernas, de Alberto Moravia, Dino Buzatti, Umberto Eco e Italo Calvino”, argumentou.

  Serviço:

 Palestra com Marcus Alves

 Tema “Experiência e conhecimento na literatura de Gavino Ledda”

 Local:  Centro Cultural Dante Alighieri de João Pessoa

 Dia: 08 de novembro, às 19h30.

 Endereço: Rua José Liberato, 102, bairro Miramar – João Pessoa

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