Cultura

Artistas pintam mural de 10 metros representando a força da mulher em Carapibus

  Um mural tematizando a presença e a força da mulher na cultura e na sociedade. Esse é o resultado de um encontro entre os artísticas plásticos William Macedo, Juliana Alves (ambos do Brasil) e Axel Arias (Argentina). Os três participaram de uma ação criativa neste final de semana durante a residência artística promovida pelo Ateliê da Galeria Valentim, em Carapibus (Conde, PB). Os artistas pintaram de forma coletiva, mas  cada um revelando o seu próprio estilo e poética. O artista visual argentino Axel Aria realizou uma releitura da mitologia religiosa, tendo Iemanjá como centro, indicando a metáfora da mulher […]

mural coletivo

 

Um mural tematizando a presença e a força da mulher na cultura e na sociedade. Esse é o resultado de um encontro entre os artísticas plásticos William Macedo, Juliana Alves (ambos do Brasil) e Axel Arias (Argentina). Os três participaram de uma ação criativa neste final de semana durante a residência artística promovida pelo Ateliê da Galeria Valentim, em Carapibus (Conde, PB). Os artistas pintaram de forma coletiva, mas  cada um revelando o seu próprio estilo e poética. O artista visual argentino Axel Aria realizou uma releitura da mitologia religiosa, tendo Iemanjá como centro, indicando a metáfora da mulher que emerge das águas. William Macedo, por sua vez, pintou a figura de uma Iracema – em referência à literatura clássica de José de Alencar – como uma mulher índia, guerreira e protetora, ambientada na praia de Tambaba. E Juliana Alves, mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais na UFPB/UFPE, pintou um auto-retrato para simbolizar a presença da mulher nas artes plásticas brasileiras.

Todas as pinturas interagiram e trouxeram como resultado um mural de 10 metros largura por dois metros de altura. “Foi um final de semana criativo e isso nos permitiu um maior diálogo. Pensamos coletivamente o mural e cada um com sua poética específica foi dando forma ao mural que tem as marcas e representações da força da mulher”, disse Juliana Alves – que coordena as ações da residência artística.

Ela explicou que a residência artística é uma maneira de o ateliê está sempre promovendo encontro com artistas de diversas áreas, como artes visuais, música e literatura. Há quinze dias que os artistas argentinos Axel Arias e Roccio Manzano vem pintando cenas em ambientes públicos e privados das praias de Jacumã e Carapibus – destacando-se os painéis na Casa Rosa, na Trattoria Rústica e no restaurante Turek.

Neste final de semana a ação se voltou para o próprio ateliê Valentim. William Macedo conta que a experiência foi riquíssima. “Podemos, em um curto período de tempo, dar forma a uma arte coletiva sem perdermos a nossa individualidade”, destacou. A interação entre os artistas tem sido a marca da residência artística, pela avaliação de Axel Arias, que também é músico. Ele diz que além de melhorar o domínio da língua portuguesa está conhecendo técnicas novas e ampliando seu portfólio. “Tem sido tudo muito bom. Não só pelos painéis que estou conseguindo realizar, mas por todo esse contato com outros artistas da cidade e da Paraíba”, finalizou.

Foto: Arquivo Galeria Valentim

Ateliê Valentim faz residência artística com argentinos que pintam murais em Carapibus e Jacumã

  Casas, restaurantes e espaços públicos das praias de Carapibus e Jacumã, na cidade de Conde (PB), estão virando espaços para arte mural a partir desta terça-feira (12). Trata-se de um trabalho artístico desenvolvido por meio de uma ação de mediação cultural do ateliê Galeria Valentim com artistas plásticos argentinos. Desde o último sábado, a artista plástica e psicóloga, Rocio Manzano, e o músico e também artista plástico, Axel Arias, começaram uma residência artística da Valentim. Os dois artistas fazem pesquisa criativa sob a coordenação de Juliana Alves, mestranda em Artes Visuais pelo programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da […]

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Casas, restaurantes e espaços públicos das praias de Carapibus e Jacumã, na cidade de Conde (PB), estão virando espaços para arte mural a partir desta terça-feira (12). Trata-se de um trabalho artístico desenvolvido por meio de uma ação de mediação cultural do ateliê Galeria Valentim com artistas plásticos argentinos. Desde o último sábado, a artista plástica e psicóloga, Rocio Manzano, e o músico e também artista plástico, Axel Arias, começaram uma residência artística da Valentim.

Os dois artistas fazem pesquisa criativa sob a coordenação de Juliana Alves, mestranda em Artes Visuais pelo programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O trabalho serve como diálogo e troca de experiências e deve resultar na pintura de pelo menos cinco murais públicos. A ação faz parte de um projeto de mediação cultural em artes organizado por Juliana Alves em seu ateliê. “Essa experiência que estamos fazendo aqui em Carapibus e Jacumã nasceu como um desdobramento do meu mestrado em Artes Visuais na UFPB, uma vez que o foco da minha pesquisa é a mediação cultural ou, as ações em torno das artes visuais em museus ”, acrescentou. “O intuito é propor aos artistas e, principalmente, às pessoas da cidade, experiências que nascem da aproximação de diferentes territórios, visualidades que emergem a partir da quebra de fronteiras”.

O primeiro mural, conforme explicou Juliana Alves, está sendo pintado na entrada do ateliê Galeria Valentim, em Carapibus. Já está planejado também dois painéis no restaurante Casa Rosa, um grande mural nos restaurantes Turek e na Trattoria Casa Rústica, este último localizado no Beco da Boemia, em Jacumã.

A artista plástica Rocio Manzano, da Província de Córdoba (AR), explicou que vem realizando painéis e murais públicos há cinco meses a partir de pesquisas sobre as identidades culturais e das populações brasileiras. Ela viajou desde o Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA). Agora na residência artística que faz no ateliê Galeria Valentim está dando continuidade ao seu trabalho. “Eu gosto muito de pintar a gente, o povo de cada cidade, e cenas que marquem as identidades das cidades que conheço”, acrescentou. Já o músico e artista plástico Axel Arias, da Província de San Luís (AR) tem se dedicado a pintar cenas da natureza local, registrando a fauna e a flora de cada cidade por onde viaja. “A gente está fazendo muitas descobertas sobre literatura, música e artes plásticas aqui e ainda aproveita para entender a identidade das cidades brasileiras”, afirmou.

Crédito da foto: Juliana Alves

 

Marcus Alves fala sobre seu novo livro na Livraria do Luiz

  “É um livro sobre um personagem à procura de um objeto de desejo: um par de sapatos amarelo. Na verdade, ele persegue o próprio sentido de sua vida”. É assim que Marcus Alves, sociólogo e escritor, descreve a sua mais recente obra, “K encontra Paludes”, publicado pela editora Cartonera Aberta e Editora do CCTA/UFPB. Neste sábado (16), às 10h, a Livraria do Luiz promove um encontro do escritor com seus leitores que poderão conversar sobre detalhes da obra, os processos criativos e aspectos da literatura. A conversa será feita a partir de uma apresentação do professor Carlos Azevedo, do […]

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“É um livro sobre um personagem à procura de um objeto de desejo: um par de sapatos amarelo. Na verdade, ele persegue o próprio sentido de sua vida”. É assim que Marcus Alves, sociólogo e escritor, descreve a sua mais recente obra, “K encontra Paludes”, publicado pela editora Cartonera Aberta e Editora do CCTA/UFPB.

Neste sábado (16), às 10h, a Livraria do Luiz promove um encontro do escritor com seus leitores que poderão conversar sobre detalhes da obra, os processos criativos e aspectos da literatura. A conversa será feita a partir de uma apresentação do professor Carlos Azevedo, do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB.

O livro “O Sapato amarelo (ou K Encontra Paludes) é a terceira obra literária de Marcus Alves. A primeira foi “O Eterno e o Provisório”, seguida de “Arqueologia”.  Os dois livros de poesia, nos quais o autor tematiza situações urbanas, angústias do homem contemporâneo – com seus dilemas e desafios, perdas de amores e de sentidos. Agora, com “K encontra Paludes”, Marcus Alves conta que incursiona pela narrativa mais longa de um “quase-romance”.

Ao longo de sua trajetória, o personagem K descobre ambientes urbanos onde vive e acaba encontrando algum sentido de suas angústias e tristezas. Marcus Alves conta que escreveu o livro como se fosse um documento antigo, encontrado na biblioteca da Universidade de Brasília (UnB), onde ele fez seu mestrado e doutorado em Sociologia.

“É um livro sobre um documento de uma vida; uma vida anônima que pode ter existido. Eu não sei. Deixo que o leitor faça suas próprias descobertas”, conta o autor. Ele explicou que, motivado por essa narrativa de memória ficcional, pensou em construir um personagem contemporâneo. “Ele se perde e se encontra entre uma vitrine e um passeio ao porto, nas avenidas da cidade que nos expõe a uma grande fantasmagoria do consumo diariamente”, revela.

Marcus Alves é mestre em Comunicação Social e Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Autor dos livros Cultura Rock e Arte de Massa (Ed. Diadorim), Cultura no Mercosul: uma política do discurso (Editora Plano/FAP).

 

Serviço:

Lançamento do Livro “K encontra Paludes”, com conversa com autor e com o professor Carlos Azevedo (UFPB).

Dia 16/06, às 10h.

Local: Livraria do Luiz, Galeria Augusto dos Anjos – Centro, João Pessoa.

Contato: 83 – 988052820 (whatsApp)

 

 

Wilson Figueiredo transforma arame e ferro em memória

Crianças soltam balão. Mulheres fazem fuxico. Bailarinas ensaiam flutuar no ar. São três experiências que ganham força e contornos vivos no emaranhado de arames e luz produzido por Wilson Figueiredo. Um artista diferenciado, sob muitos aspectos, mas principalmente pela forma como lida com arames e ferro. Sua obra ganhou contornos fortes nestes últimos 10 anos e saiu dos espaços privados para os ambientes públicos. Agora Wilson ganha uma justa homenagem pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) que lança um livro com sua trajetória e abre uma nova exposição do artista, na sexta-feira (16), às 19h. O arame nas mãos de […]

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Crianças soltam balão. Mulheres fazem fuxico. Bailarinas ensaiam flutuar no ar. São três experiências que ganham força e contornos vivos no emaranhado de arames e luz produzido por Wilson Figueiredo. Um artista diferenciado, sob muitos aspectos, mas principalmente pela forma como lida com arames e ferro. Sua obra ganhou contornos fortes nestes últimos 10 anos e saiu dos espaços privados para os ambientes públicos. Agora Wilson ganha uma justa homenagem pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) que lança um livro com sua trajetória e abre uma nova exposição do artista, na sexta-feira (16), às 19h.

O arame nas mãos de Wilson se transforma em memória. Essa é uma constatação histórica e estética que podemos fazer no momento. Mas na verdade em cada uma de suas obras neste formato aramaico ele pressupõe também que, uma vez instalada em alguma parede, a peça artística ganha uma nova vida a partir da luz que lhe é projetada. O arame nas mãos de Wilson pede luz a partir da qual sua obra se projeta além da memória: torna-se coisa viva.

Existe, nesse sentido, uma dobra ou um desdobramento estético na obra de Wilson Figueiredo. Podemos ver esse movimento em obras como “Confidências”, “Homem Repousando”, “O Cão e o Cantador” (foto). As três peças tematizam cenas do sertão, talvez a maior referência do artista – cuja origem repousa no município de Patos (PB). A primeira descreve um fuxico de duas mulheres. Sentadas num clássico banco de praça ou jardim, as amigas põem em dia sua conversa. Não importa sobre o que falam. Apenas estão juntas, são irmãs de fuxico. Na segunda obra citada um sertanejo cochila, faz uma pausa para o árduo trabalho com a enxada. Em seu banco de madeira está uma caneca e um bule de café. A terceira cena nos traz um cantador acariciando um cão. Trata-se de um homem cego: o seu chapéu se encontra meio abandonado ao chão, uma bengala repousa ao seu lado esquerdo enquanto ele vira o rosto para acariciar o cão. A cena sugere uma melancolia por seus elementos simbólicos e ausência de movimento.

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Estas obras têm autonomia e vida próprias. Fazem parte daquilo que gosto de ver com uma arqueologia aramaica do sertão de Wilson.  Em comum elas carregam o fio de arame, a riqueza de detalhes e pequenos objetos simbólicos. Um pastel ao fundo, meio terra meio, vermelho pôr do sol, também lhe é comum. E claro: todas pedem luz para ganhar novas projeções e maior vitalidade. Elas são exemplos desta estética do arame que Wilson criou nestes últimos anos.

Mas é claro que sua obra não se reduz a esse padrão de arte. Tem, ainda, um conjunto grande de esculturas que estamos nos acostumando a ver nas ruas, praças públicas e prédios privados – nessa série,  destacaria as três: “O Cavaleiro Alado”, “Acahuan” e “Asas da Folia”. A primeira, uma alegoria de 4 metros em chapa de ferro. Instalada próximo à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) nos remete a brincadeira/festa popular do cavalo marinho. Já com “Acahuan”, montada em frente ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), Wilson Figueiredo foi visitar o imaginário de Ariano Suassuna. E, com “Asas da Folia”, na praça das Muriçocas, no bairro de Miramar, o artista mantem-se fiel ao universo popular, já que sua Muriçoca de 4,3 metros está diretamente associada ao carnaval.

Seja com o arame retorcido sobre o Eucatex, seja com grandes esculturas em chapa de ferro  Wilson Figueiredo entrou para a história das artes paraibanas.

Fotos: arquivo Galeria Valentim

 

Rose Catão, Malagrida e a formação da cultura brasileira

  Vivemos uma época marcada pela emergência de uma estetização da vida cotidiana, experimentada sobretudo por uma situação que nos acostumamos a chamar nos últimos anos de “pós-moderna”. Não quero, como me ensinou Michel Maffesoli, pensar agora o conceito de pós-modernidade, mas compreendê-lo como uma série de categorias e sensibilidades que escaparam da modernidade clássica. Maffesoli dizia que eram as “sensibilidades alternativas” e as desdobravam na experiência de um “estar junto à toa” e na formação dos diversos tribalismos. Eu as encontro em diversas modalidades de culturas contemporâneas, como nas grandes festas públicas. Experiências de ruas como as raves europeias, […]

ROSE COM ESTANDARTE

 

Vivemos uma época marcada pela emergência de uma estetização da vida cotidiana, experimentada sobretudo por uma situação que nos acostumamos a chamar nos últimos anos de “pós-moderna”. Não quero, como me ensinou Michel Maffesoli, pensar agora o conceito de pós-modernidade, mas compreendê-lo como uma série de categorias e sensibilidades que escaparam da modernidade clássica. Maffesoli dizia que eram as “sensibilidades alternativas” e as desdobravam na experiência de um “estar junto à toa” e na formação dos diversos tribalismos.

Eu as encontro em diversas modalidades de culturas contemporâneas, como nas grandes festas públicas. Experiências de ruas como as raves europeias, festivais de rock/pop, encontros religiosos ou marchas gays são exemplos formais dessa estetização cotidiana. Gosto de pensar o carnaval brasileiro como um exemplo grandioso dessa experiência e, recentemente, aqui mesmo em João Pessoa, tivemos um exemplo vivo dessa dinâmica.

Me refiro ao Folia de Rua, cuja abertura pude acompanhar em dois momentos: o show da cantora Elba Ramalho e a reunião do bloco Anjo Azul – Confraria Malagrida, localizada ali próximo à antiga Faculdade de Direito. Um beco, uma escadaria e uma tradição histórica de resistência cultural dão vida a uma relação entre arte e ética da estética em nossa cidade.

Cheguei a Confraria Malagrida por volta das 20h. Adquiri um hábito sociológico de fazer aproximação das grandes manifestações (festas ou protestos) observando a forma como as pessoas estão em grupos. Como os grupos se juntam e se dispersam. Desse modo fui deslizando suave até onde estavam os estandartes do bloco Anjo Azul. Centrei o meu olhar em um deles, recentemente criado pela artista visual Rose Catão. Já tinha visto aquela xilogravura em seu ateliê: uma figura negra, que nos remete a um caboclo. Uma face firme e forte, mas ao mesmo tempo suave e delicada.

Sua cabeça é rodeada de símbolos místicos distintos, nos lembrando a tradição brasileira de miscigenação. O estandarte, Rose Catão contou que foi feito a pedido da Ednamay Cirilo, responsável pelo Anjo Azul e por toda resistência cultural do Beco.  O nome da sua xilogravura: Malagrida Caboclo. Uma homenagem ao padre Jesuíta Gabriel Malagrida que percorreu os territórios do Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia.  Colaborou com a construção de templos religiosos, conventos e seminários. A história de Malagrida é recheada de aventuras difíceis entre os índios e longas caminhadas a pé pelos estados brasileiros no esforço de edificar a obra dos Jesuítas. É uma história de uma resistência que sucumbiu apenas à ira do Marques de Pombal e aos processos da Inquisição.

Penso que o grande divisor dessa trajetória religiosa foi o seu livreto sobre o terremoto que assolou Lisboa no dia 1º. de novembro de 1755. O Marques afirmava o terremoto, que destruiu a cidade, como um fenômeno natural. Já Malagrida escreveu um texto histórico intitulado “Juízo da Verdadeira Causa do Terremoto que padeceu a Corte de Lisboa”. No texto, de 1756, o padre contrariava o poderoso Marques e atribuía o terremoto aos pecados e à falta de piedade dos homens para com Deus. Foi o motivo para o seu exílio e tempos depois começou a enfrentar o processo inquisitorial.

A obra de Rose Catão, uma xilogravura em cetim e criada por motivação carnavalesca, é permeada por essa linha histórica dado que a artista resolveu seus dilemas criativos a partir de pesquisa aos estudos de Roger Bastide e Pierre Verger. Chega, assim, a uma imagem de Malagrida como uma síntese simbólica do misticismo nacional que repousa na religião da Umbanda.

Por essa linhagem, o padre Malagrida teria reencarnado em terras brasileiras e isto foi revelado ao mediúnico Zélio Fernandino de Moraes por volta de 1908. “A imagem do Caboclo Sete Flechas – surgiu sobre o cedro – lindo, forte, sublime e valoroso, rompendo e, ao mesmo tempo, respeitando o baixo relevo e os sulcos da madeira talhada. Registrando dessa forma a gestualidade fluida e forte dos movimentos das minhas mãos”, acrescentou Rose Catão e um texto explicado que circulou na abertura do Folia.

A xilogravura de Rose Catão, que circulou em mão em mão na forma de estandarte do Anjo Azul, mostra a força da arte: revelar, por meio de pesquisa e criação, detalhes de uma trajetória que não pode ser esquecida, a história da formação da cultura brasileira, que entre modernidades e pós-modernidades ganha vida em vários becos do carnaval.

 

O valor da reprodução local das artes

Com alguma frequência tomo café olhando “O Lago das Ninfeias, harmonia verde”. Trata-se de uma obra de Claude Monet, de 1899. O óleo sobre tela do mestre impressionista está reproduzido em uma das minhas canecas de café. Isso significa muito pouco em nossa era, dado que já convivemos há décadas com a ideia da reprodução técnica da obra de arte – tema imortalizado em ensaio clássico do filósofo alemão Walter Benjamin. Do contexto histórico do nazismo aos nossos dias, a reflexão de Benjamin ganhou contornos muito variados e respostas políticas igualmente múltiplas, mas uma coisa é certa: a reprodução da […]

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Com alguma frequência tomo café olhando “O Lago das Ninfeias, harmonia verde”. Trata-se de uma obra de Claude Monet, de 1899. O óleo sobre tela do mestre impressionista está reproduzido em uma das minhas canecas de café. Isso significa muito pouco em nossa era, dado que já convivemos há décadas com a ideia da reprodução técnica da obra de arte – tema imortalizado em ensaio clássico do filósofo alemão Walter Benjamin.

Do contexto histórico do nazismo aos nossos dias, a reflexão de Benjamin ganhou contornos muito variados e respostas políticas igualmente múltiplas, mas uma coisa é certa: a reprodução da obra de arte é hoje um gesto banal no nosso cotidiano. E tomamos café com Monet, comemos tapioca em pratos com obras de Klee – da mesma forma que vestimos a Monalisa em camisetas.

Cada vez que entramos em um museu no Brasil, no Chile ou em Barcelona, saímos com uma lembrança, seja um cartão postal, um boné ou uma caderneta de anotações em cuja capa brilha uma obra de arte. Não mais, se seguirmos os passos de Benjamin, uma obra autêntica. Mas uma cópia. Uma reprodução que acalenta nossos sonhos massificados de “homem-coisa”, como nos sugere Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Eu etiqueta”, publicado originalmente no livro Corpo, em 1984.

Sabemos do lado esperançoso que Benjamin tinha para o processo de democratização da arte por meio da reprodução técnica, que tiraria a obra estética dos salões fechados e poderia conduzir-nos a uma fruição mais ampla, diversificada. Sabemos igualmente que esta justiça estética poderia também nos conduzir a perda da autenticidade, originalidade da obra, que deixaria de lado o seu momento único – o aqui e o agora, como dizia Benjamin.

Mas o espírito democrático e inevitável da reprodução poderia gerar novas experimentações, novas experiências como tomar café em uma caneca com motivos artísticos de Monet. Agora, e foi isso que motivou este meu artigo, podemos experimentar essa condição em canecas com obras de Rodrigues Lima (foto acima) ou Miguel dos Santos, só para ficarmos com dois artistas locais.

Tenho visto com muita frequência que artistas plásticos paraibanos estão aderindo com mais tranquilidade e eficiência à ideia de reproduzir suas obras em objetos casuais, como canecas, camisetas, travesseiros e brochuras.  É uma tendência. Uma experiência que leva suas obras para outros públicos e também as coloca em uma espécie de varejo estético.

Falta talvez o comércio local ver esse movimento e começar a colocar em suas prateleiras reproduções de obras preciosas dos nossos artistas – lado a lado de representações de Mickey Mouse, Minions ou qualquer outro elemento da indústria cultural e do entretenimento. Seria uma excelente contribuição do nosso comércio à estetização da vida cotidiana se passasse a exibir cada vez mais reproduções de obras de Miguel ou Flávio Tavares, Vanessa Cardoso ou Rose Catão, Chico Ferreira ou Josenildo Suassuna. Não importa o nome do artista: o mais importante talvez seja nos deixarmos etiquetar pela nossa própria espécie criativa, num movimento meio Macunaíma de nos descolonizarmos e redesenhar nossas próprias identidades, sem nenhum prejuízo para o nosso espírito global/internacional.

Casa Hermano José: lugar precioso para a cultura

João Pessoa ganhou esta semana um empreendimento cultural novo que tem marcas simbólicas extremamente importantes: a Casa de Cultura Hermano José. Localizada na praia do Bessa, a Casa mobiliza muitas emoções no campo da cultura – especialmente das artes plásticas – não só porque o mestre Hermano José viveu naquele ambiente, mas principalmente porque o espaço é a realização de um dos seus sonhos. Algumas vezes o visitei na sua casa e ele sempre me falou das preocupações e do desejo de doar, transferir, para a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) o seu acervo de obras. Mas, claro, queria garantias […]

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João Pessoa ganhou esta semana um empreendimento cultural novo que tem marcas simbólicas extremamente importantes: a Casa de Cultura Hermano José. Localizada na praia do Bessa, a Casa mobiliza muitas emoções no campo da cultura – especialmente das artes plásticas – não só porque o mestre Hermano José viveu naquele ambiente, mas principalmente porque o espaço é a realização de um dos seus sonhos.

Algumas vezes o visitei na sua casa e ele sempre me falou das preocupações e do desejo de doar, transferir, para a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) o seu acervo de obras. Mas, claro, queria garantias sobre os cuidados e preservação necessários para este objetivo único que é a obra artística. Chegamos a ter uma conversa sobre esse tema com o ex-reitor, professor Romulo Polari, mas não prosperou como imaginávamos. Somente agora, a atual reitora Margareth Diniz tornou concreto o sonho do mestre Hermano,  que nos deixou uma criação exemplar e que compõe uma estética histórica em torno da própria cidade de João Pessoa.

A avenida Tabajara dos anos40, o Parque Solon de Lucena dos anos 50, a praia de Cabo Branco foram alguns dos lugares imortalizados pelas linhas, traços e cores do professor Hermano José. Ele deu inspiração e muitas vezes energia criativa para várias gerações de artistas (e não artistas, como eu). Deixou em nosso imaginário um verdadeiro roteiro artístico-turístico, que precisa ser incorporado à uma eventual política de cultura em nossa cidade.

Como bem lembrou Flávio Tavares durante a abertura da nova Casa de Cultura: o mestre Hermano era cúmplice  da criação e ultrapassou a morte. “Tinha o poder de revelar, mostrar, tirar cortinas para quem não quer ver”, completou Flávio, indicando a viva transparência do professor Hermano.

O professor Hermano José tinha realmente uma luz única. Era uma espécie de planta ou pedra preciosa que quando a gente encontrava batia uma vontade de fazer algo, criar algo, nem que fosse para escutar a sua crítica.  Quando fui à inauguração da Casa de Cultura Hermano José sai de lá cheio dessa sua desesperança positiva. Melhor: uma esperança crítica e de luz porque meu último olhar na Casa caiu sobre um quadro pintado por Miguel dos Santos: era um retrato de um ser iluminado, era o professor Hermano. Assim espero que seja a sua Casa de Cultura.

Imagem: reprodução de obra de Miguel do Santos

 

Belchior: entre o lirismo e a rebeldia

Um texto publicado no jornal o Globo no dia 26 de abril de 1977 dá o tom de uma rebeldia. Vou direto ao press-release distribuído pela Philips-Phonogram, que falava de um garoto que aos 15 anos fugiu de casa: “Muito cedo aprendi a ser rebelde e solitário… a saída de casa era um lance poético, aquilo me fascinava: o poeta rebelde, andarilho, itinerante”. Quando soube da morte de Belchior, neste domingo (30) me lembrei de algumas de suas músicas e principalmente lembrei de um estudo antropológico de Rita Morelli sobre a indústria fonográfica brasileira. Ela tomou como objeto de estudo […]

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Um texto publicado no jornal o Globo no dia 26 de abril de 1977 dá o tom de uma rebeldia. Vou direto ao press-release distribuído pela Philips-Phonogram, que falava de um garoto que aos 15 anos fugiu de casa:

“Muito cedo aprendi a ser rebelde e solitário… a saída de casa era um lance poético, aquilo me fascinava: o poeta rebelde, andarilho, itinerante”.

Quando soube da morte de Belchior, neste domingo (30) me lembrei de algumas de suas músicas e principalmente lembrei de um estudo antropológico de Rita Morelli sobre a indústria fonográfica brasileira. Ela tomou como objeto de estudo dois monstros sagrados da MPB: Fagner e Belchior – e mostrou como os dois tiveram seus caminhos, conquistas e frustações produzidos, encaminhados ou desencaminhados por essa indústria.

Passados 40 anos do press-release, fomos tomados pela má notícia da morte do músico, que nos deixou da forma poética que viveu: rebelde e solitário. Em seu estudo, fortemente influenciado pela crítica à indústria cultural desenvolvido pela Escola de Frankfurt, Rita Morelli nos indica uma possibilidade de entender a rebeldia no ambiente da Música Popular Brasileira.

No caso de Belchior, às vezes um caminho ambíguo e permeado de tensões. O sentido forte que recolhi na trajetória do músico e na interpretação de Morelli é de um caminho dialógico entre um lirismo individual e uma poética contestatória política. Claro que isso reverbera de muitos modos no interior de uma gravadora.

Na passagem entre o LP “Alucinação” (1976) e o seguinte “Coração Selvagem”,(1977) em uma das entrevistas o próprio Belchior nos dá uma síntese dessa problemática:  “Acho que vai chegar o dia em que as pessoas vão entender que uma canção de amor é tão contestatória como uma canção de protesto. Inclusive eu tenho esse lado lírico que muito pouca gente percebe. E se um dia me der na veneta fazer um disco de amor, eu faço sem nenhum problema”.

A vida de Belchior (e sua morte) nos obriga a pensar esta problemática que aliás vai aparecer em muitos outros artistas que podem compor uma lista longa sobre essa tensão entre o lirismo e a contestação. Uma tensão que às vezes aparece em um elemento poético, às vezes na batida musical – mas está ali. No caso de Belchior esse movimento, me parece, sempre foi intenso. Daí que a imagem que fica dele é a de um músico que na melhor linhagem dos criativos morreu como viveu: em estado de poesia – rebelde e solitário.

Diálogo com família é boa forma de enfrentar a Baleia Azul, sugere Marista

Muitos pais estão atentos e preocupados com essa onda em torno da Baleia Azul, um jogo virtual que tem induzido adolescentes e jovens ao suicídio e outros tipos de suplício corporal e emocional. A preocupação é também das escolas, talvez o lugar onde o dano de um jogo tão perturbador apareça de forma mais frequente dada a característica coletiva do ambiente escolar. Penso que este problema precisa mesmo ser pensado e ter respostas da sociedade. Escolas e pais tem agora um momento para intensificar o diálogo. E as famílias necessitam aumentar o controle e a vigilância sobre os hábitos virtuais […]

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Muitos pais estão atentos e preocupados com essa onda em torno da Baleia Azul, um jogo virtual que tem induzido adolescentes e jovens ao suicídio e outros tipos de suplício corporal e emocional. A preocupação é também das escolas, talvez o lugar onde o dano de um jogo tão perturbador apareça de forma mais frequente dada a característica coletiva do ambiente escolar.

Penso que este problema precisa mesmo ser pensado e ter respostas da sociedade. Escolas e pais tem agora um momento para intensificar o diálogo. E as famílias necessitam aumentar o controle e a vigilância sobre os hábitos virtuais dos filhos. Com vistas a isso algumas escolas já fazem atividades voltadas ao enfrentamento do problema. É o caso do Colégio Marista Pio X que em João Pessoa já encaminhou carta orientando as famílias e prepara uma série de eventos para tratar o tema.

O primeiro deles é uma palestra sobre “Sinais de alerta em que os país devem estar atentos no comportamento dos filhos”. O evento terá a participação do psicólogo Sueliton Jackson Medeiros de Souza e do Tenente-Coronel da Polícia Militar Arnaldo Sobrinho Moraes Neto. Este último é especialista em crimes cibernéticos. O encontro com as famílias no Marista será dia 25, as 18h45. Tem vagas limitadas e os pais precisam se inscrever antes neste link.

A combinação interdisciplinar, o olhar psicológico associado à atenção policial, revela a característica do problema. Quando o Baleia Azul se intensificou e viralizou nas redes sociais pôde-se facilmente perder o controle do processo. Muita gente faz piada, ridiculariza, ri da problemática, num claro esforço de amenizar o dano, de relativizar a força da Baleia entre os jovens e adolescentes. Está tudo bem. Mas também tem muito maluco aproveitando para provocar falsas sensações e aparecer, como o caso de uma mensagem que circula em grupos de whatsapp no qual uma pessoa ameaça distribuir balinhas envenenadas em escolas na cidade de Campina Grande.

Ai o olhar da polícia precisa entrar em cena. O problema não é simples e precisa de cautela por parte dos pais e das escolas,  uma vez que mobiliza sensações e emoções de adolescentes às vezes já em situação de precariedade emocional. Em sua carta dirigida às famílias o Marista Pio X recorta o problema e sugere alguns modos de encara-lo:  “jovens e as crianças precisam vivenciar bons exemplos de comportamento moral e ético. Também necessitam viver e sonhar a vida futura, pois só assim será possível combater a invasão, inversão e o bombardeio de valores que hoje as famílias e as escolas estão enfrentando”, alerta.

Sabemos que não é tarefa fácil criar filhos, educá-los, com um olho no presente e outro com vistas ao planejamento de seu futuro. A Baleia azul, naquilo que tem provocado de mal, numa cena social já perturbada com crise econômica, política e de valores, mostra a necessidade dos pais não abrirem mão de sua condição de cuidar e dialogar ainda mais. E nessa tarefa infinita precisam muito da interação com a escola.

Universidade tem pós-graduação gratuita em Jornalismo Científico

Nestes tempos difíceis que vivemos a capacitação  profissional pode ser uma excelente alanca para aumentar a empregabilidade. Isso, claro, serve para todas as áreas e a comunicação não fica atrás. Tem uma boa notícia para os profissionais do setor:  Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade de Campinas (Unicamp) recebe até o próximo 2 de junho inscrições de interessados em ingressar na pós-graduação lato sensu (especialização) em jornalismo científico.  São oferecidas 30 vagas no curso que terá duas fases em seu processo de seleção. A especialização é gratuita e deve durar três semestres.  O início está previsto para 7 de […]

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Nestes tempos difíceis que vivemos a capacitação  profissional pode ser uma excelente alanca para aumentar a empregabilidade. Isso, claro, serve para todas as áreas e a comunicação não fica atrás. Tem uma boa notícia para os profissionais do setor:  Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade de Campinas (Unicamp) recebe até o próximo 2 de junho inscrições de interessados em ingressar na pós-graduação lato sensu (especialização) em jornalismo científico.  São oferecidas 30 vagas no curso que terá duas fases em seu processo de seleção.

A especialização é gratuita e deve durar três semestres.  O início está previsto para 7 de agosto.

Na primeira etapa, o candidato deve preencher formulário de inscrição online (disponível no endereço eletrônico: www.labjor.unicamp.br).  Deve ainda enviar currículo. Nesta fase também precisa remeter um texto de autoria própria, com até três laudas, sobre o tema “Jornalismo científico em tempos de internet e redes sociais”.

No dia 12 de junho serão divulgados os aprovados para a segunda fase. E nesta etapa será realizada uma prova escrita e um teste de proficiência em inglês, além de entrevista pessoal. Os 30 selecionados serão divulgados em 3 de julho.