Cultura

Produtores identificam em CPI os maiores problemas da Lei Rouanet

O baixo orçamento destinado à cultura e a excessiva concentração dos recursos na região Sudeste foram alguns dos problemas identificados por produtores culturais ouvidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lei Rouanet (8.313/91) nesta quarta-feira (5), na Câmara dos Deputados. A Lei Rouanet, criada em 1991 durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, permite que pessoais físicas e jurídicas possam aplicar em projetos e ações culturais parte do que devem como Imposto de Renda. A Lei concentra, segundo a crítica dos produtores, 80% dos projetos na região Sudeste e em poucas empresas.  Também é alvo de críticas o […]

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O baixo orçamento destinado à cultura e a excessiva concentração dos recursos na região Sudeste foram alguns dos problemas identificados por produtores culturais ouvidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lei Rouanet (8.313/91) nesta quarta-feira (5), na Câmara dos Deputados.

A Lei Rouanet, criada em 1991 durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, permite que pessoais físicas e jurídicas possam aplicar em projetos e ações culturais parte do que devem como Imposto de Renda.

A Lei concentra, segundo a crítica dos produtores, 80% dos projetos na região Sudeste e em poucas empresas.  Também é alvo de críticas o financiamento a artistas consagrados, as falhas na prestação de contas e na fiscalização e o financiamento de espetáculos privados com dinheiro público oriundo de renúncia fiscal.

Entre as medias sugeridas pelos produtores ouvidos na CPI aparecem a necessidade de um maior estímulo aos pequenos produtores.  

Veja algumas sugestões feitas pelos produtores culturais:

  1. A execução orçamentária dos dois fundos que fazem parte dos recursos previstos na Lei Rouanet, o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e o Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart);
  2. A autorização para que pequenas empresas tributadas pelo lucro presumido possam patrocinar o setor – o que é restrito hoje às empresas tributadas pelo lucro real;
  3. Estimular a participação de pessoas físicas no mecenato;
  4. Reforçar a fiscalização da execução dos projetos por meio de parcerias com a Receita Federal, bancos públicos e auditorias para projetos superiores a R$ 2 milhões.
  5. Descontingenciar os recursos destinados à cultura originados dos jogos de loterias federais (3% da arrecadação);
  6. Exigir contrapartidas das empresas que financiarem a cultura por meio de mecenato (patrocínio), principalmente quando este patrocínio divulgar marcas e produtos comerciais;
  7. Permitir repasses do Fundo Nacional de Cultura para estados e municípios, como maneira de desconcentrar o financiamento do setor;

Com informações da Agência Câmara – Foto: Cleia Viana

A virtude da verdade ainda é possível na imprensa?

A Paraíba e todo o país tem convivido com uma cena comum no campo profissional da comunicação: o declínio dos jornais impressos, das revistas e todo um conjunto de mídias que tomam como suporte o papel. A vida está acelerada rumo ao mundo digital. A tendência solapou grandes experiências de jornais como o Jornal do Brasil e na Paraíba deixou como herança apenas os jornais Correio da Paraíba e A União – este último de envergadura pública e que também tem suas dificuldades. No esforço de suportar a pressão que surge dos meios digitais, dos blogs, portais de notícias e […]

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A Paraíba e todo o país tem convivido com uma cena comum no campo profissional da comunicação: o declínio dos jornais impressos, das revistas e todo um conjunto de mídias que tomam como suporte o papel. A vida está acelerada rumo ao mundo digital. A tendência solapou grandes experiências de jornais como o Jornal do Brasil e na Paraíba deixou como herança apenas os jornais Correio da Paraíba e A União – este último de envergadura pública e que também tem suas dificuldades.

No esforço de suportar a pressão que surge dos meios digitais, dos blogs, portais de notícias e redes sociais, o jornal impresso tenta ganhar fôlego. Recentemente o Correio da Paraíba presenteou o seu público e a sociedade local com uma campanha publicitária em que apela para ideias de credibilidade e apuração criteriosa da notícia. Em uma das peças promocionais o jornal destaca como manchete (falsa):

 

“Para fazer homenagem, idoso compra banco de praça onde conheceu a esposa”.

 

A baixo desse tema central da campanha traz um texto no qual aparece a defesa da ideia e do diferencial do jornal como contraponto para a informação que circula no mundo digital, dos blogs e das redes sociais. Tais experiências digitais marcadas muitas vezes pela divulgação de fatos falsos, boatos, meias verdades.

Em um ambiente cultural que tem se caracterizado nos últimos anos como mundo da “pós-verdade”, eis que é o jornal impresso, no caso específico o Correio da Paraíba que nos alerta e nos chama a atenção para os elementos “verdadeiros” da notícia. Elementos nem sempre acobertados pela experiência digital, segundo nos leva a crer a campanha publicitária e um conjunto grande de discursos e análises midiáticas.

O valor da campanha do Correio reside exatamente nisso: provocar os nossos sentidos para aquilo que seria real, separando o irreal, do hiper-real e do simulacro que moram nos cômodos de nossa casa e nossa vida digital. Não é debate novo e vem crescendo nas últimas décadas no campo da reflexão que toma como eixo central a virada de modelo da sociedade moderna para uma pós-modernidade, marcada pela lógica do espetacular, do simulacral, da ausência do real. A ideia eixo é que vivemos uma vida hegemonizada e tensionada por uma cultura virtual na qual desaparecem a fronteira entre o real e a fantasia.

Classicamente o jornal impresso sempre foi o veículo de comunicação que lidou com os aspectos reais da vida. O fato verdadeiramente acontecido aparecia no jornal que tem como centro a linguagem referencial. Cada vez mais essa cultura referente e “verdadeira” foi migrando de lugar até se isolar num mundo polar de alguns portais, sites de notícias institucionais etc. Os novos lugares da verdade ainda estão em construção. E paralelo a isso o jornal impresso luta para manter seu espaço de credibilidade, de fala verdadeira, de fala franca.

A campanha do Correio é nesse sentido uma campanha forte e tradicional.  O seu valor, repito, reside nesse necessário alerta para os nossos sentidos não abandonarem por completa a ideia de verdade, ou de parresía, como os antigos chamavam a experiência da fala franca, a virtude e o dever de dizer a verdade.

Evidente que se trata de uma noção e uma experiência permeadas de ambiguidades, de jogos, de tensões, como bem nos lembra Michel Foucault em uma de suas aulas no Collége de France, entre os anos 1970 e 1984. Não tenho a pretensão de fazer uma longa explanação aqui nem sobre a parresía , nem sobre a campanha do jornal Correio da Paraíba. Quero apenas dizer que esta última, ao procurar restabelecer o sentido da verdade, ou da ausência de verdade no processo de construção da notícia, cria um excelente motivo para debatermos a força da imprensa naquilo que ela sempre mirou: a credibilidade.

A morte de Walcott deixa literatura como Coca-Cola sem gás

“Às vezes a vida parece Coca-Cola sem gás”. Relembro o versinho fácil da banda Maria Bacana só para reafirmar a falta de sentido das coisas, da vida e da própria morte. No caso aqui, da morte de um poeta forte como Derek Walcott, ocorrida nesta última sexta-feira (17). Dele, que ganhou o Nobel de Literatura em 1992, só li uma obra: “Omeros”. Mas fico satisfeito, como quem se deleitou sobre toda a literatura de um vasto mundo. Talvez pelo fato de ser um poema épico narrativo no qual surge com força, brutalidade, delicadeza e sonho a trajetória de um povo. […]

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“Às vezes a vida parece Coca-Cola sem gás”. Relembro o versinho fácil da banda Maria Bacana só para reafirmar a falta de sentido das coisas, da vida e da própria morte. No caso aqui, da morte de um poeta forte como Derek Walcott, ocorrida nesta última sexta-feira (17). Dele, que ganhou o Nobel de Literatura em 1992, só li uma obra: “Omeros”. Mas fico satisfeito, como quem se deleitou sobre toda a literatura de um vasto mundo.

Talvez pelo fato de ser um poema épico narrativo no qual surge com força, brutalidade, delicadeza e sonho a trajetória de um povo. Sempre vi “Omeros”, como um poema muito próximo da gente brasileira, naquilo que temos de colonizados, de resistentes e de culturas híbridas. O poema narra um conjunto de vidas em Santa Lúcia, ilha localizada entre o oceano Atlântico e o mar do Caribe. Walcott criativamente instaurou uma confluência de tradições narrativas em seus versos: estão presentes elementos da Odisseia e da Ilíada, traços de Edgar Allan Poe, Maiakóvski e passagens dos Beatles.

Não é um poema de fácil leitura. Paulo Vizioli, responsável pela edição de Omeros pela Companhia das Letras, analisou que o poema era a mais ambiciosa e a melhor obra de Derek Walcott, que teria criado personagens “esféricas”, com profundidade psicológica e passíveis de evolução. O autor usou técnicas de romance e do cinema. “Tudo isso imprime dinamismo ao enredo, se bem que, concomitantemente, traga dificuldades ao leitor, devido às frequentes e inesperadas mudanças de rumo da narrativa”, completou Vizioli, em sua tradução de 1994.

Mas quaisquer dificuldades não afastam o leitor de Omeros pela densidade que conseguiu dar a estória e seus diversos pontos de entradas, sua temática e personagens muitas vezes deslocados e sem raízes. Questões como formação de identidades, colonialismos e imperialismos de várias matrizes (lembro que a Santa Lucia e as Antilhas foram dominadas por Holanda, França e Inglaterra). Um tema, o imperialismo, muito frequente na obra cujo narrador em determinado verso lembra de maneira muito significativa:

“Servimo-nos destas ilhas verdes como de azeitonas nos pires”.

As vezes os personagens de Omeros lembram os Outsiders, tematizados por Norbert Elias. Essa memória talvez esteja associada a própria história de Walcott que viveu sempre entre dois mundos: filho de pai inglês e mãe descendente de escravo.  O autor conseguiu estabelecer uma preciosa síntese entre diversas tradições do mundo Ocidental, onde pulsou sua veia caribenha e agora deixa a literatura como Coca-Cola sem gás.

Unesco inscreve para projetos sobre Diversidade Cultural

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) está com inscrições abertas para o processo seletivo com vistas a financiamento de projetos culturais. Os interessados podem se inscrever até o dia 14 de abril e pleitear até US$ 100 mil por meio do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural (FIDC), criado em 2005 pela Convenção de Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais da  Unesco.   Apenas um detalhe: as inscrições deverão ser feitas em inglês ou francês pelo site da Unesco. O objetivo do FIDC é financiar projetos para promover mudanças estruturais na […]

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A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) está com inscrições abertas para o processo seletivo com vistas a financiamento de projetos culturais. Os interessados podem se inscrever até o dia 14 de abril e pleitear até US$ 100 mil por meio do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural (FIDC), criado em 2005 pela Convenção de Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais da  Unesco.

 

Apenas um detalhe: as inscrições deverão ser feitas em inglês ou francês pelo site da Unesco. O objetivo do FIDC é financiar projetos para promover mudanças estruturais na economia da cultura nos chamados países em desenvolvimento. Os projetos financiados podem ir desde a capacitação e mapeamento do setor cultural, planejamento de políticas públicas até a apoio aos empreendedores culturais.

 

MinC

 

Os projetos inscritos passarão inicialmente por uma pré-seleção nacional, feita pelo MinC, pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) e pelo escritório da Unesco no Brasil. Na sequência, a comissão nacional enviará, até 15 de maio, quatro projetos para exame da Unesco, sendo dois apresentados por instituições públicas e dois por organizações não governamentais.

 

Entre os critérios de avaliação dos projetos candidatos estão atender os objetivos e prioridades da Convenção da Unesco, ter impacto estrutural que leve ao fomento de setor cultural dinâmico, promover a cooperação Sul-Sul ou Norte-Sul-Sul e assegurar que o projeto tenha sustentabilidade e benefícios de longo prazo.

 

O projeto deverá ser implementado no prazo de 12 a 24 meses. Desde 2010, o fundo beneficiou mais de 90 projetos de 51 países em desenvolvimento, com valor total de mais de US$ 6 milhões.

Com informações do Minc

Leis inúteis e fúteis garantem alegria do verão de 17

  O ano de 2017 promete ser rico e fértil para os ilustradores, os cartunistas e os humoristas. É o que nos indicam estes dias iniciais do nosso verão. Penso mesmo que na fronteira política, sem muita credibilidade e carregados de vexames, vários grupos de lideranças estão se esmerando na pauta do besteirol. Aqui na Paraíba ou em São Paulo, mas fenômeno se repete em todos os cantos do país. A maior cidade do país e da América Latina já nos deu duas boas risadas de verão: o prefeito e secretários indo à limpeza urbana vestidos de gari. E como […]

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O ano de 2017 promete ser rico e fértil para os ilustradores, os cartunistas e os humoristas. É o que nos indicam estes dias iniciais do nosso verão. Penso mesmo que na fronteira política, sem muita credibilidade e carregados de vexames, vários grupos de lideranças estão se esmerando na pauta do besteirol. Aqui na Paraíba ou em São Paulo, mas fenômeno se repete em todos os cantos do país.

A maior cidade do país e da América Latina já nos deu duas boas risadas de verão: o prefeito e secretários indo à limpeza urbana vestidos de gari. E como consequência imediata deste primeiro besteirol, veio o segundo: a Lei Soninha. Uma lei que multa secretários paulistas que cheguem atrasados aos encontros de trabalho.

Por aqui, tivemos notícias recentes de um conjunto leis absolutamente inúteis e fúteis que deixaria qualquer Macaco Simão avexado. No final do ano passado apareceu uma lei que obriga os postos de gasolina a terem obrigatoriamente (faço esse erro de propósito) calibradores de pneus. Bom é um serviço útil, mas convenhamos que não precisamos de uma lei para isso: o bom senso e tino econômico dos postos de gasolina poderiam resolver a questão com tranquilidade. E basta o motorista compreender o próprio código de trânsito nacional para saber que é sua responsabilidade manter o carro em pleno funcionamento – e isso inclui os pneus. Ai, se vamos viajar ou abastecer é só ir no posto da vizinhança e calibrar as quatro patas do veículo.

Agora um deputado mobilizar assessores que mobilizam um governador que mobiliza um jornal oficial para tornar público uma lei assim… Falta fazer publicidade para ela. Outra que nos apareceu recentemente foi a Lei que obriga organizadores de shows, espetáculos, peças de teatro e demais atividades artísticas a divulgarem informações sobre o tempo estimado dos eventos realizados na Paraíba. Fui olhar o autor da brilhante matéria e pasmei: foi o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Adriano Galdino.

Realmente começo a concordar que está faltando seriedade no trato com a legislação. Ou: como as leis sérias e fundamentais já foram todas formuladas, os legisladores entraram numa de vamos fazer qualquer coisa para ter uma manchete de portal. Só pode ser. Se 2016 foi um ano tenso e trágico, 2017 promete muito riso.

Cuba nos ensina algo quando propõe pagar dívida com rum?

  Li uma notícia na Folha de São Paulo absolutamente inusitada, mas muito significativa. A informação, marcada pela lógica do espetáculo, dava conta que Cuba estava propondo pagar uma dívida de R$ 900 milhões à República Tcheca com garrafas de seu famoso rum. A dívida cubana está associada à época da Guerra, Fria quando a Tchecoslováquia fazia parte do bloco comunista. O fato do rum cubano ser usado como moeda me chamou atenção por dois motivos. O primeiro está associado à forma peculiar de um país tentar resolver um débito. O segundo motivo é associado a um verdadeiro desafio que […]

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Li uma notícia na Folha de São Paulo absolutamente inusitada, mas muito significativa. A informação, marcada pela lógica do espetáculo, dava conta que Cuba estava propondo pagar uma dívida de R$ 900 milhões à República Tcheca com garrafas de seu famoso rum.

A dívida cubana está associada à época da Guerra, Fria quando a Tchecoslováquia fazia parte do bloco comunista. O fato do rum cubano ser usado como moeda me chamou atenção por dois motivos.

O primeiro está associado à forma peculiar de um país tentar resolver um débito. O segundo motivo é associado a um verdadeiro desafio que Cuba enfrentou nas últimas décadas.

Talvez o seu maior problema tenha sido o enfrentamento à lógica do consumo. Conheci muitos cubanos que me contavam suas diatribes diárias para ter acesso a bens simples de consumo. Eu mesmo constatei a dificuldade de consumir certos produtos na Ilha, nos dias que lá estive quando fazia pesquisa para meu doutorado.

A simpatia, a educação e a criatividade do cubano me mostrou como seria possível viver sem a lógica fetichista do mundo capitalista – onde todos, na maior parte das vezes, somos levados a termos falsas necessidades de bens e produtos. Experimentamos uma inversão de valores e depositamos as nossas virtudes menos no sentido do ser e mais no aspecto de possuir coisas e nos consumimos em raiva e estresse cotidiano para comprar, comprar e comprar.

Cuba entrou para a história recente por ter dado conta de resolver questões importantes nas áreas de saúde e educação. Virou modelo para o mundo, ainda que tenha sua política sempre em cheque por conta do autoritarismo da esquerda clássica.

Mas para as pessoas que vêm além, sempre falo que a verdadeira lição que a ilha nos dá é questionar o tempo todo essa predominância do consumo. É possível viver dentro de alguma simplicidade, garantindo, porém, coisas fundamentais para a vida de um povo: saúde e educação.

A lição cubana não foi ouvida nem pelos conservadores, nem pelos progressistas brasileiros. Tivemos 13 anos de governo progressista que se esmerou em facilitar o consumo e nossas famílias caíram em dívidas astronômicas. Passamos por duas grandes crises econômicas mundiais facilitando o crédito: para carro, geladeira, fogão, casa e outros coisas mais – incluindo um monte de bugigangas. Nos últimos anos o brasileiro entrou positivamente em quase todas as listas de consumo mundiais: éramos os grandes consumidores de telefone, internet, carros, tv por assinatura e vários outros bichos.

Não aprendemos a poupar. Assim como não aprendemos que não é pelo consumo que vamos nos tornar um país forte. Nos tornaremos um país forte quando aprendermos a valorizar a educação. A inusitada oferta cubana à Tchecoslováquia (pagar a dívida com rum) pode ser entendida como um sinal de aprofundamento da crise na Ilha, claro. Mas também pode nos dizer o seguinte: não queremos sacrificar a saúde e a educação do povo mandando divisas para outros países. Podemos negociar uma bebedeira massiva e global regada à rum cubano? A Ilha quer resolver seu problema, e essa é a beleza da contradição, justamente pelo consumo.

O Fausto de Goethe e a delação do fim do mundo

  Entre as brincadeiras de domingo, meu filho mais novo gritou do canto da sala: – Papai, posso escolher um livro na biblioteca do sr.? Do cantinho do meu esconderijo disse apenas: Pegue um. O garoto foi lá e, penso, de forma alheatória capturou uma brochura vermelha. Todo orgulhoso no alto de sua sabedoria de três anos, me trouxe a obra. Abri o volume e me deparei com uma edição da Otto Pierre editores para a obra Fausto, de Goethe. O menino foi logo avisando: Mas esse não tem figurinha. Vou pegar outro, viu? E saiu correndo, me deixando sozinho […]

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Entre as brincadeiras de domingo, meu filho mais novo gritou do canto da sala:

– Papai, posso escolher um livro na biblioteca do sr.?

Do cantinho do meu esconderijo disse apenas: Pegue um.

O garoto foi lá e, penso, de forma alheatória capturou uma brochura vermelha. Todo orgulhoso no alto de sua sabedoria de três anos, me trouxe a obra. Abri o volume e me deparei com uma edição da Otto Pierre editores para a obra Fausto, de Goethe. O menino foi logo avisando: Mas esse não tem figurinha. Vou pegar outro, viu? E saiu correndo, me deixando sozinho com o Fausto, cuja tradução está comigo desde os anos de 1988.

Faz parte da minha biblioteca da juventude. O meu filho não retornou. E entendi que ele logo descobriu outra brincadeira. Eu fiquei entretido com o livro que me levou. Por um quarto de horas, folhei a obra. Revi minhas anotações nos cantos de página, todas seguindo uma certa orientação de Marshall Berman em sua crítica à modernidade e ao modernismo como aparece em ‘Tudo que é Sólido Desmancha no ar”.

Li Fausto com um olho em Berman, muito presente em um grupo de jovens nos anos 1980. Mas logo no “Prólogo no Céu”, não me contive em pensar rápido sobre uma relação esquisita entre Fausto e a delação do fim do mundo, como vem sendo tratadas pela mídia as revelações dos empresários da Odebrecht.

Antes de prosseguir preciso destacar: não vamos confundir Odebrecht com ode a Bertolt Brecht.

O leitor pode perguntar-me por que fiz essa relação. Confesso que não sei. Apenas fui contaminado pelo clima dos nossos dias, nos quais a delação do fim do mundo aparece na farmácia, na padaria, no mercado. Aparece até em sonhos – e claro, deve povoar os pesadelos de alguns das 48 lideranças citadas. O homem médio brasileiro não consegue escapar dessa conversa e eis que, ao folhear uma obra lida há quase 30 anos, me vejo com uma descida dos céus feita pelo Senhor, os arcanjos Rafael, Gabriel e Miguel. Junte-se ao grupo Mefistófeles.

A conversa dos três anjos com o Senhor se reveste de alguns elementos positivos. Gira em torno da beleza da terra, da harmonia das esferas. O sentido da fala é que os anjos adoram o brilho da terra e que seu movimento lhes daria força. Entretanto, vem de Mefistófeles a lembrança perversa do elemento humano em nosso planeta.

“Nada tenho a dizer do sol e das esferas”, adianta Mefisto, “mas vejo apenas a que ponto os homens se atormentam”. E narra seu olhar sobre a terra e seus habitantes. O Senhor lhe faz censura, questionando se Mefistófeles não veria “nada de bom na terra”.

A resposta é cruel: “Nada, senhor: tudo ocorre perfeitamente mal, como sempre; os homens fazem pena nos seus dias de miséria”, acrescenta. Mefistófeles ainda completa graciosamente que sentia remorsos por atormentar a “pobre espécie humana”.

Vista assim, isoladamente, a sua narrativa se adequa bem aos nossos dias, de desesperança e destemperos. Mas o Senhor lança na conversa uma dúvida fundamental para a nossa existência. Simplesmente, Ele pergunta:

-Conheces Fausto?

A resposta de Mefistófeles é positiva. Sim, ele conhece o doutor, a quem chama de doido, para quem não existiria nada de terrestre – nem no ato de comer, nem de beber. O Fausto é um sábio, conhecedor de diversas áreas da ciência como jurisprudência, medicina, teologia. Para Mefistófeles, um “doido”. Para o Senhor, um de seus seguidores, permeado por virtudes. É no “Prólogo no Céu”, no diálogo entre Deus e Mefistófeles, que surge o desafio deste último em seu esforço para corromper Fausto, que acaba fazendo um pacto para recuperar sua juventude e a experiência de vida, do mundo vivido, que lhe faltava.

A narrativa poética de Goethe nos apresenta nuanças, conflitos, tensões que Fausto vai suportar em sua aventura de modernidade, como nos sugeriu Berman. Uma trajetória construída à luz de diversas ambiguidades, mas tendo como eixo uma certa racionalidade, um saber próprio que deu base à nossa sensibilidade. Suas conquistas e temores – de Fausto – não poderei revelar aqui e agora.

A única coisa que posso fazer no momento é questionar: por que, no meio de uma biblioteca de quase 4 mil livros, um menino acha o Fausto e o carrega com suas mãozinhas ingênuas para o pai? Talvez para nos mostrar que, nessa história de sabotagem de nosso país, seja preciso fazer um mergulho e colher mais razão, mais sabedoria, para suportar o mundo de Mefisto que nos rodeia a todos. “Conhece-se Fausto”, pergunta o Senhor.

Ferreira Gullar e o dever da solidariedade

“Até já, querido poeta”. A frase curta da cantora Adriana Calcanhoto talvez revele a dor e o peso do silêncio que a morte de Ferreira Gullar nos impôs neste domingo. Depois que soube o acontecido vi o meu dia mudar. Perdi uma alegria que tinha aqui no coração esperançoso, entre saltos e brincadeiras de crianças. A morte de um gigante como Ferreira Gullar, comunista carregado de contradições, nos obriga a pensarmos o sentido da vida. Ouvi pessoas lembrando que seu livro Muitas Vozes (1999) falava sobre a morte. Mas prefiro vê-lo como o poeta da esperança dos homens comuns. Essa […]

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“Até já, querido poeta”. A frase curta da cantora Adriana Calcanhoto talvez revele a dor e o peso do silêncio que a morte de Ferreira Gullar nos impôs neste domingo. Depois que soube o acontecido vi o meu dia mudar. Perdi uma alegria que tinha aqui no coração esperançoso, entre saltos e brincadeiras de crianças.

A morte de um gigante como Ferreira Gullar, comunista carregado de contradições, nos obriga a pensarmos o sentido da vida. Ouvi pessoas lembrando que seu livro Muitas Vozes (1999) falava sobre a morte. Mas prefiro vê-lo como o poeta da esperança dos homens comuns. Essa gente que vive nos bancos de ônibus a caminho para o trabalho; que ama, sua, sofre e não se entrega à rudeza da vida.

Descobri a poesia de Gullar ainda muito jovem, numa época de destroços e esperanças – talvez como hoje. Aprendi em seus textos uma espécie de dever de solidariedade. E somente uns 20 anos depois descobri o sentido dessa ideia, revelada pelo próprio poeta no belo livro Histórias de Poder –   organizado por Alberto Dines, Florestan Fernandes  Jr. e Nelma Salomão. São entrevistas com lideranças religiosas, militares, escritores e políticos. Entrevistado, Ferreira Gullar conta como, sendo presidente do Centro Popular de Cultura da Une, filiou-se ao Partido Comunista logo no dia do Golpe Militar, 1º de Abril.

A conversa é muito reveladora da tensão existencial entre o indivíduo e o grupo; entre o indivíduo e as instituições sociais, no melhor estilo Jean Paul Sartre. “Eu não ia brigar sozinho, então eu tenho que brigar numa entidade, ligado a uma instituição, alguma coisa, um partido que tenha infraestrutura. (…)E ao mesmo tempo eu achava que era um dever de solidariedade. Se eu era companheiro deles até aquele momento, no momento da desgraça maior, isso é uma coisa que eu considero uma norma e costumo fazer isso”, dizia ele naquela entrevista.

O “dever de solidariedade”, me chamou muita atenção. Sai da vida do militante e passeia em muitos de seus versos e textos jornalísticos. Aliás, no seu último artigo publicado hoje na Folha de São Paulo ele indica esse mesmo caminho, ao comentar os erros da esquerda e da direita. O poeta escreve que as fortunas de milhões e milhões de dólares deveriam ser divididas e “investidas na formação cultural e profissional das pessoas menos favorecidas, usadas para subvencionar hospitais e instituições para atender pessoas idosas e carentes”. Me parece que essa virtude o acompanhou desde a entrada  até o fim do PCB e mesmo no PPS – cuja Fundação Astrojildo Pereira dedicou muito tempo e energia documentando e produzindo material de sua memória e história.

Parece um verdadeiro epitáfio, seu último artigo na imprensa. No dia de sua morte, o criador de Poema Sujo e Dentro da Noite Veloz, nos deixa uma janela, uma luz silenciosa de alguma esperança. Morreu como viveu, permeado de muitas vozes e cheio de silêncios indomados.

Nova rodada de revitalização do Centro Histórico

O grupo literário Sol das Letras e a Coordenadoria do Patrimônio Cultural de João Pessoa (Copac-JP), realizam o II Pôr do Sol no Hotel Globo. O evento será nesta quinta-feira (1), a partir das 16h, com performance literária, mostra de livros e show acústico. Terá a presença do artista Thiago Ramalho e da escritora portuguesa Isa Pontes. A iniciativa é um passo a mais no processo de consolidação de um projeto de atuação cultural no centro histórico. Soma-se a um conjunto de operações que são feitas e precisam ser estimuladas no mundo vivido daquele território. Sempre pensei que o nosso […]

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O grupo literário Sol das Letras e a Coordenadoria do Patrimônio Cultural de João Pessoa (Copac-JP), realizam o II Pôr do Sol no Hotel Globo. O evento será nesta quinta-feira (1), a partir das 16h, com performance literária, mostra de livros e show acústico. Terá a presença do artista Thiago Ramalho e da escritora portuguesa Isa Pontes.

A iniciativa é um passo a mais no processo de consolidação de um projeto de atuação cultural no centro histórico. Soma-se a um conjunto de operações que são feitas e precisam ser estimuladas no mundo vivido daquele território. Sempre pensei que o nosso centro histórico será revitalizado somente a partir de uma intensa ocupação – o que pode vir a ocorrer a partir de uma maior interação entre poderes instituídos e sociedade civil organizada.

O Hotel Globo foi revitalizado há pouco tempo pela Prefeitura e agora carece de uma política de ocupação. O governo municipal faz sua parte. Mas se o Hotel não for bem usado cai no esquecimento e logo comporá mais um equipamento isolado naquela área. Nenhum governo recupera sozinho um território histórico e abandonado do ponto de vista econômico. A área da Praça Antenor Navarro ainda pulsa hoje graças a ações, às vezes isoladas, de coletivos da juventude e pequenas empresas que resistem a uma visão consumista e fetichista com sua tendência a ver vida apenas nas praias e redondezas.

Faz tempo que os setores urbanos sofreram um deslocamento populacional e econômico e tiveram seus centros esvaziados. Faz tempo que, cada cidade a seu modo, tenta encontrar o modelo mais interessante e viável de recolocar no lugar o seu centro histórico.

Não tenho um caminho mágico para o caso de João Pessoa, mas penso que obras revitalizadas por si só não conseguem resistir a esse comportamento social. Um prédio pintado, bonitinho, mas isolado não tem sustentabilidade suficiente para suportar essa tensão centro-mar e tende a ser novamente abandonado em curto período.

Um centro histórico sem o gênio de seu povo pode virar entulho urbano e arquitetura envelhecida. Só chama atenção de uns poucos curiosos com tendências a colecionadores de passado e esquecimento. Penso que a ação dos órgãos municipais feita ali precisa ser acompanhada e ter suporte de setores da população, sobretudo neste caso, de segmentos da classe média esclarecida. Essa nova rodada de esforços para revitalizar o centro histórico precisa ser construída a base de intenso diálogo. Talvez seja o nosso caminho.

Concurso de fotografia homenageia Lei Maria da Penha

“O empoderamento da mulher e a superação da violência”. Este é o tema da 5ª edição do concurso de fotografia sobre a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06).   Trata-se de uma homenagem ao 10º aniversário da Lei. As inscrições poderão ser feitas até o dia 10 de dezembro no site: concursoleimariadapenha.com.br Cada concorrente pode inscrever até três fotografias inéditas. O concurso é dividido em duas categorias: Fotógrafos adultos, profissionais ou não, a partir de 18 anos; e fotógrafos jovens para participantes com idade entre 14 e 17 anos. O Concurso é uma iniciativa da Procuradoria da Mulher e Coordenadoria dos […]

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“O empoderamento da mulher e a superação da violência”. Este é o tema da 5ª edição do concurso de fotografia sobre a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06).   Trata-se de uma homenagem ao 10º aniversário da Lei. As inscrições poderão ser feitas até o dia 10 de dezembro no site: concursoleimariadapenha.com.br

Cada concorrente pode inscrever até três fotografias inéditas. O concurso é dividido em duas categorias: Fotógrafos adultos, profissionais ou não, a partir de 18 anos; e fotógrafos jovens para participantes com idade entre 14 e 17 anos.

O Concurso é uma iniciativa da Procuradoria da Mulher e Coordenadoria dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, e da Procuradoria Especial da Mulher do Senado Federal. Tem parceria com o Banco Mundial.

Os vencedores serão premiados no dia 8 de março de 2016, com troféu ou menção honrosa e terão suas fotos publicadas em livro, com edição bilíngue (português e espanhol). A obra será distribuída a três mil escolas públicas, universidades e organismos internacionais. Os trabalhos vencedores serão expostos no Congresso Nacional.

Fonte: Câmara dos Deputados