Cultura

O menino-mendigo no Shopping

  Sentado a uma mesa de café de um grande shopping, o sr. K folheava um livro, pego ao acaso numa bancada da livraria. Era um desses livros antigos, que as nossas mães usavam – em épocas distantes – para decorar a estante da sala. Livro grosso, encapado de vermelho e com cantoneiras emolduradas de falso dourado. Os cheiros de café e livro novo se misturavam ao ambiente, que contava ao lado com crianças faladeiras e vendedores invisíveis. O sr. K via as gravuras do livro e delicadamente circulava as pontas dos dedos no dourado fino das suas molduras. Tinha […]

FOTO LEGIAO

 

Sentado a uma mesa de café de um grande shopping, o sr. K folheava um livro, pego ao acaso numa bancada da livraria. Era um desses livros antigos, que as nossas mães usavam – em épocas distantes – para decorar a estante da sala. Livro grosso, encapado de vermelho e com cantoneiras emolduradas de falso dourado. Os cheiros de café e livro novo se misturavam ao ambiente, que contava ao lado com crianças faladeiras e vendedores invisíveis.

O sr. K via as gravuras do livro e delicadamente circulava as pontas dos dedos no dourado fino das suas molduras. Tinha um prazer de leitor. Às vezes mirava as pernas de moças que passavam a sua frente usando curtas saias de bailarinas de banda de forró techno.  Mas o seu prazer era todo voltado para o livro, verdadeiro objeto de desejo, quando levantou os olhos e viu à sua frente um garoto.

O menino não tinha mais que sete ou oito anos. Vestia uma camisa surrada, com listas pretas e brancas intercaladas com umas finas manchas de vermelho. Não usava chapéu. E aos pés carregava preguiçosamente uma sandália de couro cru, dessas compradas em feiras de artesanato barato.

A pele do menino era de um preto sem cor. Diria que um tom meio cinza, meio fosco. Talvez uma pele marcada por um pouco de sujeira e suor. Tudo isso, acompanhado de um molejo sútil do corpo infantil, revelava que aquele garoto não era definitivamente apegado à cultura dos clientes daquele shopping e da livraria-café.

Lentamente ele se aproximou do sr. K. Lhe dirigiu a palavra num sussurro tímido e com olhar cabisbaixo. As pessoas envolta burguesamente mexiam suas xícaras de café, fingindo controlarem a ansiedade momentânea. Mulheres conversavam sobre roupas e etiquetas de lojas de departamentos. O gerente da livraria passava instrução aos vendedores de como melhor atender os clientes. Um homem, tipo executivo, rodava entre seus dedos grossos, um charuto coíba nunca acesso.

O sr. K não ouviu o sussurro do garoto e lhe ofereceu o seu ouvido inclinando levemente a cabeça. Foi quando escutou, plenamente o pedido do menino. Incrédulo, olhou para o horizonte que findava no movimento de moças louras com seus pacotes vermelhos e azuis. Andavam rápidas e logo não passavam de uma miragem à frente do sr. K. Moveu a cabeça para o lado, num aceno negativo para o rapazinho, que saiu repetindo o mesmo pedido, o mesmo desejo, em várias outras mesas do café.

Parado e ainda sem querer acreditar no que ouvira minutos antes, o sr. K rodeou os dedos macios e desejosos pelo dourado do livro e afirmou para si mesmo como a infância e a pobreza tinham migrado de lugar. Algo tinha acontecido com aquele menino que, em outros tempos, pediria um pão, um leite ou um doce. O menino fosco que passou naquela tarde chuvosa à sua frente lhe sussurrou assim:

– O Senhor me dá uma ajuda pra eu completar meu dinheiro e comprar um relógio do Ben-10 que eu vi na loja de brinquedo?

O sr. K fechou o livro. Olhou pela última vez o horizonte brilhante dos pacotes, das moças e rapazes à sua frente e saiu sussurrando ele próprio em voz baixa, lembrando-se da lição que um garoto pobre lhe passou naquele instante: a vida muda, o tempo todo.

O Futuro de uma Folia

Este ano de 2016 fica para a cultura carnavalesca de João Pessoa como um momento que precisa ser muito refletido, sobretudo a partir da mostra de força das culturas populares em torno do Folia de Rua.  Observei algumas coisas que compartilho aqui, neste carnaval marcado pelo discurso de crise. A primeira questão a destacar é que quando se anuncia uma nuvem de crise sobre o país, a cultura é o setor que inicialmente mais sofre. Todos cortam verbas da cultura. Mas tem um detalhe que poucos sabem: a verba da cultura é tão ínfima, que cortá-la, amigos, faz pouca diferença […]

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Este ano de 2016 fica para a cultura carnavalesca de João Pessoa como um momento que precisa ser muito refletido, sobretudo a partir da mostra de força das culturas populares em torno do Folia de Rua.  Observei algumas coisas que compartilho aqui, neste carnaval marcado pelo discurso de crise.

A primeira questão a destacar é que quando se anuncia uma nuvem de crise sobre o país, a cultura é o setor que inicialmente mais sofre. Todos cortam verbas da cultura. Mas tem um detalhe que poucos sabem: a verba da cultura é tão ínfima, que cortá-la, amigos, faz pouca diferença na economia e no orçamento seja federal, estadual ou municipal. Mas para as manchetes da mídia aparece muito bem o prefeito anunciar que “não vai gastar em festa”.

Quem pensa assim esquece que a indústria do entretenimento é o grande negócio do momento. O problema é que, sem planejamento e projeto, governos municipais não sabem traduzir a festa em uma parte de uma rica economia criativa. Veja que o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife – todos territórios afetados pela crise nacional -, estão se mantendo com força. Porque nestes lugares o carnaval deixou de ser tratado como “festinha” e passou a ser encarado como referência do modelo econômico. Cultura e economia andam lado a lado. Melhor seria: ao invés de acabar com a festa, ter transparência na verba cultural e principalmente saber investi-la.

Aqui, em João Pessoa, apesar de termos longa tradição de blocos e do Folia de Rua, ainda não conseguimos dar este salto. Como não foi construído o mercado da folia na cidade, a desconstrução do carnaval local pareceu ser a única saída para os gestores da cultura. Economia de palito, diria. Tivemos blocos antigos que não saíram. Tivemos blocos como o Anjo Azul que sequer conseguiu o direito a uma orquestra – que em média custaria R$ 1.200, para fazer uma festa de duas horas. Tivemos blocos que esperaram até às 22h pela chegada de uma orquestra e ainda desfilaram pelas ruas escuras do Centro Histórico. Faltou decoração. Faltou iluminação, coisas básicas em qualquer festa popular – até mesmo para a segurança da população e dos foliões.

Todas essas faltas são justificadas por conta da crise, que na verdade deveria ser um momento para superação. As administrações municipais deveriam de forma transparente garantir os investimentos necessários para a manutenção das festas populares e atrair para este universo a iniciativa privada. Na verdade, se fez ao contrário: moralizou-se a folia. Estagnou-se uma parte importante da indústria do entretenimento. A pergunta é: como a economia que se fez durante o carnaval investiu-se mais em saúde? Tivemos mais dinheiro para a mobilidade urbana ou para a educação? Evidentemente que não.

A cultura popular aparece como uma despesa e não como um investimento. Esse é o grande problema e a miopia daqueles que não sabem fazer projetos e transformar a folia em lucro, como foi feito em outras capitais. O futuro da nossa folia, da nossa alegria, passa por essa mudança de atitude no trato com a cultura.

 

As lições de Abelardo, o Imortal

            Na posse do jornalista Abelardo Jurema na Academia Paraibana de Letras (APL) algumas coisas chamaram atenção e deixaram algumas lições. A primeira delas aparece numa lembrança do acadêmico José Mário da Silva Branco que me tocou, pela sua caracterização muito verdadeira do sentido do colunismo social desenvolvido pelo agora imortal Abelardo. A intervenção de sua fala é uma boa aula de introdução ao jornalismo de entretenimento.  O aspecto geral do discurso de acolhida de José Mário sugere dois tipos de colunismo social: um apegado a uma “vaidade adoecida” e outro mais ligado a informação substantiva. […]

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            Na posse do jornalista Abelardo Jurema na Academia Paraibana de Letras (APL) algumas coisas chamaram atenção e deixaram algumas lições. A primeira delas aparece numa lembrança do acadêmico José Mário da Silva Branco que me tocou, pela sua caracterização muito verdadeira do sentido do colunismo social desenvolvido pelo agora imortal Abelardo. A intervenção de sua fala é uma boa aula de introdução ao jornalismo de entretenimento.  O aspecto geral do discurso de acolhida de José Mário sugere dois tipos de colunismo social: um apegado a uma “vaidade adoecida” e outro mais ligado a informação substantiva. Este segundo foi o tipo escolhido por Abelardo, de acordo com José Mário e de algum modo acordado e construído pela maioria dos imortais da Academia que o elegeu.

Um colunismo social construído a partir de uma ideia mais informativa, mais substantiva e menos adjetiva. Poderia traduzir a questão numa frase: não existiria “cinema de lágrimas” na coluna social feita por Abelardo. Esse seria o seu diferencial, que inclusive deu base para sua eleição na APL.

A outra lição de Abelardo na APL passa pela forma de sua ascensão à instituição. A eleição numa Academia, em um sindicato ou uma cidade é o gesto mais forte de nossa tradição democrática e republicana, desde os tempos dos clássicos da política que incluiu uma longa linhagem desde Montesquieu à Hannah Arendt e Norberto Bobbio.  Nesse sentido a eleição de Abelardo refaz a força e a vitalidade desse princípio democrático, que deve ser respeitado em todas as esferas. Pode-se discordar do eleito, mas não se deve desprezar ou desqualificar o processo que alimenta a confraria dos acadêmicos. Este também parece ter sido o sentido do recado que o professor Damião Ramos, presidente da Academia, na forma de mensagem dirigida ao recém imortal, a partir do Padre Vieira: cuidar dos vidros como se cuida de cristais. Damião, ao fazer a defesa da Academia, convidando todos ao diálogo e à amizade fraterna, reafirma a maior lição da democracia: a convivência com a diferença, o respeito a multiplicidade de estilos, de identidades.

Essas são as duas melhores lições da posse de Abelardo, na APL: o apelo ao um melhor jornalismo de entretenimento e à convivência humana no meio da diferença.

Saramago e o fim da história

“A história dos homens é a historia dos seus desentendimentos com deus, nem ele  nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. É uma das afirmativas do narrador de Caim, último romance de José Saramago publicado por aqui. É um livro em muitos aspectos polêmico, que tem passagens às vezes cômicas e desesperançadas. Entretanto, se faz absolutamente necessário que seja bem lido, sobretudo nestes tempos em que médicos lutam para tirar agulhas do corpo de uma criança de dois anos, cujo pai poderia aparecer soberbamente em quaisquer das páginas de Saramago ou de outro grande escritor. Muita gente […]

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“A história dos homens é a historia dos seus desentendimentos com deus, nem ele  nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. É uma das afirmativas do narrador de Caim, último romance de José Saramago publicado por aqui. É um livro em muitos aspectos polêmico, que tem passagens às vezes cômicas e desesperançadas. Entretanto, se faz absolutamente necessário que seja bem lido, sobretudo nestes tempos em que médicos lutam para tirar agulhas do corpo de uma criança de dois anos, cujo pai poderia aparecer soberbamente em quaisquer das páginas de Saramago ou de outro grande escritor.

Muita gente tem visto Caim como uma mera peça publicitária do escritor português e Nobel da Literatura. Não acho que ele precisa disso. Li Caim com certa curiosidade, afinal é mais uma obra que tenta recriar o mito de fundação da vida. Outros grandes artistas fizeram esse ritual de reescrita dos livros sagrados. O cinema está lotado desse esforço. Lembro, por exemplo, de Pasolini, Zefirelli, Scorsese. Na literatura o nome que me aparece agora é  Anthony Burgess, com o seu Jesus  Christi and  the Love Game – um livro de 1976, publicado pela Nova Fronteira como “O homem de Nazaré”.

Em comum, além da narrativa bíblica, muitas dessas obras têm uma coisa: a capacidade de instaurar polêmicas com a tradição católica. Não foi diferente com o Caim de Saramago. O próprio autor esperava receber todo tipo de tratamento crítico, dos católicos e, principalmente, dos judeus. A comunidade judaica não me parece, pelo menos até agora, muito afetada pelo seu livro. Vi uma declaração sensata do rabino Elieze du Martino, líder da comunidade judaica de Lisboa,  na qual afirmava que o mundo judeu não iria se escandalizar com os escritos de Saramago.  É uma linha de raciocínio sensata, que talvez separe narrativa literária da narrativa do livro Sagrado.

Ao confundir os dois pontos de vistas pode-se incorrer na intolerância e na desinformação. No seu Caim, Saramago constrói um olhar irônico sobre algumas grandes passagens do Velho Testamento. Mas isso não me parece propriamente uma exegese do livro Sagrado. Na fúria com a qual o seu personagem Caim enfrenta deus (cuja grafia aparece sempre em minúscula), Saramago  nos diz, talvez, que o homem precisa olhar melhor o que faz com o próprio homem. Durante todo o tempo, o autor português nos questiona o sentido da vida.

Caim acusa deus, em muitas passagens. Acusa desde o gesto primeiro quando mata o irmão Abel e diz que assim o fez porque Deus permitiu. Volta a acusar quando da passagem por Sodoma e Gomorra, por ter permitido a morte de crianças inocentes. Coloca deus na condição de sínico ao fazer um acordo patético com Josué às portas de Jericó e como um jogador medonho ao permitir que satã teste a fé de Job e destrua a vida deste.

O livro de Saramago não tem uma narrativa temporal tradicional e por um recurso puramente poético-literário, Caim sai de um momento para outro da história. Na maior parte das vezes aparece apenas como um espectador da história. Apenas em alguns fragmentos Caim é sujeito. Isso vai aparecer, por exemplo, no gesto de matar Abel, nos seus encontros eróticos com Lilith (a personagem feminina forte e curiosamente a que mais aparece grafada de forma maiúscula), na intervenção do sacrifício de Isaac e na passagem mais importante do Dilúvio, com Noé.

No sacrifício de Abraão, é Caim quem impede a morte de Isaac. O anjo de acordo com a narrativa irônica de Saramago chega atrasado. O motivo é mais grotesco: a asa direita do anjo não sincronizava com a asa esquerda. Também lhe faltou um plano de vôo e o anjo, perdido,  não sabia em qual monte seria realizado o sacrifício.

Venhamos, trata-se do Nobel da Literatura, um autor consagrado, mas não tinha uma poética mais interessante para justificar Caim no lugar do anjo? Às vezes o livro de Saramago tem esse apelo frágil, no uso da linguagem. Talvez por não propor-se a uma narrativa celebre de recriação do livro Sagrado – tem em algumas passagens uma linguagem bem comum. E isso vemos, por exemplo, na abertura do capítulo 13 ao afirmar: “Deus não veio ao bota-fora”.

Saramago inicia então o desfecho de sua obra com o ponto final do Dilúvio, no qual Caim tem uma importância fundamental para a existência, ou não, de uma nova humanidade. É o momento também que o autor explicita o sentido da história que desenvolveu nesta obra: o fim da história sagrada. Na passagem de Noé o assassino do próprio irmão assume o seu lado vil e até serial killer. É também frente ao Dilúvio que Saramago mostra o seu maior esforço e sua maior desesperança: como recriar uma humanidade. Talvez por isso, aos 87 anos, ele tenha se voltado para o livro Sagrado, para contestá-lo é verdade, mas  não deixa de existir um retorno ao Sagrado e uma sinalização de que devemos procurar essa nova humanidade.

 

Aviso de Incêndio

 Este livro de Michel Löwy funciona, no Brasil atual, como um aviso de incêndio. É uma obra enxuta, sobre um pensador difícil de classificar. Löwy fala de Walter Benjamin não como quem faz uma biografia, mas como quem descreve uma metodologia de trabalho. Vem daí a importância do livro Walter Benjamin: aviso de incêndio. Publicado pela Boitempo, esta recente leitura sobre o autor de Origem do Drama Barroco comove pela beleza singela de um crítico que, ao escapulir das “Escolas”, nos presenteou com um modo único de pensar a história e realizar a crítica. È por isto que Löwy, logo […]

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 Este livro de Michel Löwy funciona, no Brasil atual, como um aviso de incêndio. É uma obra enxuta, sobre um pensador difícil de classificar. Löwy fala de Walter Benjamin não como quem faz uma biografia, mas como quem descreve uma metodologia de trabalho. Vem daí a importância do livro Walter Benjamin: aviso de incêndio. Publicado pela Boitempo, esta recente leitura sobre o autor de Origem do Drama Barroco comove pela beleza singela de um crítico que, ao escapulir das “Escolas”, nos presenteou com um modo único de pensar a história e realizar a crítica. È por isto que Löwy, logo no primeiro capítulo nos antecipa sobre a impossibilidade de recrutar Benjamin para o modernismo ou para o pós-modernismo.

O pensamento de Benjamin está em disputa ainda hoje e Löwy nos mostra isso no rápido passeio que faz  por Habermas e Hannah Arendt. Critica os dois. O primeiro por sua tentativa de enquadrar Benjamin em seu “discurso filosófico da modernidade”. O erro de Arendt, autora de A condição Humana,  teria sido aproximar Benjamin de Martin Heidegger. Mas o livro de Löwy não é propriamente sobre Benjamin e se uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, que constituem “um dos textos filosóficos mais importantes do século XX”.  No campo revolucionário, diz Löwy,  talvez seja o documento mais significativo, desde as “Teses sobre Feurbach” de Karl Marx.

O documento “Sobre conceito de história” é de 1940. Löwy, em sua revisão bibliográfica, nos conta como boa parte da literatura sobre as teses resulta da incompreensão, “ora entusiasta ou cética, mas de qualquer maneira incapaz de apreender a dimensão do texto”.  Exagero do francês à parte, o fato é que ele próprio tenta acrescentar uma nova leitura ao documento benjaminiano. Escrito para não ser publicado, o documento de Benjamin passou, de acordo do Löwy, por interpretações de três grandes escolas. A escola materialista: Walter Benjamin como um marxista, cuja formulação teológica deve ser vista como metáfora. Brecht seria o anjo anunciador dessa perspectiva. A segunda leitura forte de Benjamin foi promovida por Gershom Sholem, que via o amigo como um teólogo judeu, um pensador messiânico. A terceira escola, a da contradição,  tenta conciliar marxismo, teologia judaica, materialismo e messianismo. É a leitura de Habermas.

Löwy se esforça para acrescentar uma quarta perspectiva: W. Benjamin como marxista e teólogo. Não propõe uma interpretação exaustiva, não pretende a mais correta e verdadeira. Löwy tem a honestidade intelectual de anunciar olhares rápidos para evidenciar “uma certa coerência, onde outros vêem só dissonância, contradição e ambigüidade”. Leitor tardio de “Sobre o conceito de história” – somente teve seu primeiro contato com o documento de Benjamin em 1979 – Löwy diz que a leitura das teses afetou suas certezas: “me obrigou a refletir de outra maneira, sobre uma série de questões fundamentais: o progresso, a religião, a história, a utopia, a política”. Quem sabe uma leitura de  Walter Benjamin: aviso de incêndio ajude o pensamento de esquerda brasileiro a fazer sua atualização nestes tempos de perdição e escândalos. O pensamento de Benjamin nunca foi tão atual.

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