Política

Simplifica João Pessoa ou perdemos R$ 6 milhões e a falésia

Participei nesta segunda-feira (11) da audiência pública promovida pela Comissão do Meio Ambiente da Câmara Federal. O tema: falésia do Cabo Branco. Sai de lá com um sentimento ambíguo: entre o desânimo e a esperança. Ouvimos representantes dos Ministérios da Integração Nacional, do Meio Ambiente e do Turismo. Tinha também representantes da PMJP e do governo do Estado. O quadro da falésia de Cabo Branco todos já conhecemos. A cada chuva desmorona uma parte. Aquele monumento da natureza, único, desmorona de todos os lados. Mas a principal questão ao meu ver, foi colocada pelo secretário do Ministério do Turismo. Neusvaldo […]

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Participei nesta segunda-feira (11) da audiência pública promovida pela Comissão do Meio Ambiente da Câmara Federal. O tema: falésia do Cabo Branco. Sai de lá com um sentimento ambíguo: entre o desânimo e a esperança. Ouvimos representantes dos Ministérios da Integração Nacional, do Meio Ambiente e do Turismo. Tinha também representantes da PMJP e do governo do Estado. O quadro da falésia de Cabo Branco todos já conhecemos. A cada chuva desmorona uma parte. Aquele monumento da natureza, único, desmorona de todos os lados.

Mas a principal questão ao meu ver, foi colocada pelo secretário do Ministério do Turismo. Neusvaldo Ferreira Lima falou quase como um homem de negócios, que vê na falésia e na região que se estende até a fronteira do Conde, um produto turístico. Uma área que tem potencial forte e na qual o Ministério do Turismo acredita e investe. Aliás já investiu recentemente cerca de R$ 100 milhões na obra do Centro de Convenções.

O secretário lembrou esse dado para mostrar que o turismo é algo extremamente importante para o país e a Paraíba. Nesse cenário colocou a falésia de Cabo Branco. E fez um alerta, que não sei se foi ouvido por todos: se não for feita uma ação rápida, a cidade de João Pessoa perderá os recursos hoje aprovados no governo federal para a falésia.

Neusvaldo Lima explicou que cerca de R$ 6 milhões destinados à falésia estão sendo garantidos por força de uma liminar, uma vez que a PMJP teria pendências fiscais junto ao governo. Aí reside a ameaça: a qualquer momento a justiça pode mudar essa situação, cancelando os recursos. “Na medida do possível é preciso começar a obra”, fez um verdadeiro apelo o secretário.

Vem daí minha desesperança. Quem conhece a dinâmica do governo local sabe que a lentidão é o que predomina. Aliado à lentidão está também o sufoco burocrático e uma briga insensata como o governador. A falésia se dissolve como sal no mar, enquanto isso.

Ainda tem mais: uma tensão entre dois projetos. O primeiro, deixado pelo ex-prefeito Luciano Agra. E um novo projeto. O primeiro sugeria algumas ações imediatas e a construção de dois quebra-mares – fruto de estudos realizados pelo próprio Ministério da Integração Nacional – e que deve custar aos cofres públicos cerca de R$ 14 milhões. O segundo, contestado por especialistas em dinâmica costeira, prevê a construção de oito quebra-mares proteção do sopé da falésia, drenagem pluvial e pavimentação de vias –  a custos totais de R$ 72 milhões.

É muito projeto e muito dinheiro, que tende a não sair da prancheta. Como disse a professora Lígia Tavares na reunião desta segunda-feira: “que bom que temos dinheiro e que mal que não sabemos o que fazer com o dinheiro”. Minha sugestão antes que a falésia desabe de vez: simplifica João Pessoa. Faz o básico bem feito. Mas eu comecei dizendo que estava entre o desânimo e a esperança. E de onde vem a esperança? Diria que vem do mar e da engenharia simples dos índios. A solução indígena está dando certo próximo a praia do Seixas… O simples, às vezes, é o certo.

 

MI garante R$ 15 milhões para Vertente Litorânea na PB

  Existe um certo consenso regional, no ambiente do Nordeste, que a oferta de água é o grande motor para o desenvolvimento. Isso não é uma exclusividade do Nordeste, evidente. Seja nos cerrados mineiros e goianos, seja na metade sul do Rio Grande do Sul, a água é meio fundamental para ampliar a nossa produção de alimentos, gerar empregos e melhorar a renda das populações. Nesta quinta-feira (7/7), o Ministério da Integração Nacional deu um passo importante para ampliar essa política da água. Liberou, de uma única vez, R$ 18 milhões para melhorar a oferta de água no Eixo Leste […]

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Existe um certo consenso regional, no ambiente do Nordeste, que a oferta de água é o grande motor para o desenvolvimento. Isso não é uma exclusividade do Nordeste, evidente. Seja nos cerrados mineiros e goianos, seja na metade sul do Rio Grande do Sul, a água é meio fundamental para ampliar a nossa produção de alimentos, gerar empregos e melhorar a renda das populações.

Nesta quinta-feira (7/7), o Ministério da Integração Nacional deu um passo importante para ampliar essa política da água. Liberou, de uma única vez, R$ 18 milhões para melhorar a oferta de água no Eixo Leste do Projeto de Integração do Rio São Francisco. A Paraíba ficou com R$ 15 milhões para continuidade do Canal da Vertente Litorânea. Quase 200 mil paraibanos que moram em Ingá, Mogeiro, Itabaiana, São José dos Ramos, Sobrado, Riachão do Poço, Sapé, Mari, Cuité de Mamanguape, Araçagi e Itapororoca, são municípios  diretamente beneficiados com a obra.

Não tenho informação precisa se este volume de recursos completa a obra que está com 55% do projeto em execução, mas convenhamos que é um grande alívio para a região.

 

 

Câmara debate medidas do MPF contra corrupção

O Plenário da Câmara dos Deputados, o mesmo que aprovou o impeachment da presidente Dilma, vai se transformar, nesta quarta-feira (22), em uma comissão geral que discute o Projeto de Lei 4850/16. Este projeto tem importância fundamental em nossos dias porque estabelece medidas de combate à corrupção, a crimes contra o patrimônio público e ao enriquecimento ilícito de agentes públicos. Um detalhe importante: o texto em debate teve origem na ação do Ministério Público Federal: 10 medidas contra a corrupção. Todas as 10 medidas são importantes, mas talvez algumas delas ganhem para o cidadão médio brasileiro um valor mais significativo […]

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O Plenário da Câmara dos Deputados, o mesmo que aprovou o impeachment da presidente Dilma, vai se transformar, nesta quarta-feira (22), em uma comissão geral que discute o Projeto de Lei 4850/16. Este projeto tem importância fundamental em nossos dias porque estabelece medidas de combate à corrupção, a crimes contra o patrimônio público e ao enriquecimento ilícito de agentes públicos. Um detalhe importante: o texto em debate teve origem na ação do Ministério Público Federal: 10 medidas contra a corrupção.

Todas as 10 medidas são importantes, mas talvez algumas delas ganhem para o cidadão médio brasileiro um valor mais significativo porque conseguem traduzir objetivamente o sentimento de avanço que precisamos para o combate à corrupção.  São elas: a criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos; o aumento das penas e crime hediondo para corrupção de altos valores e a rapidez nas ações de improbidade administrativa

É muito comum observarmos o homem do povo dizer que em seu município o gestor público “não tinha onde cair morto” e após, entrar no sistema de poder, passou a ter luxuosos apartamentos, carrões da moda e outros mimos. Bens muitas vezes incompatíveis com a renda mensal média de um prefeito, de um secretário de governo, irmã, mãe ou parente próximo. Um dos grandes males da nossa incompleta modernidade brasileira é justamente essa confusão entre a fortuna pública e a privada.

As medidas propostas pelo MPF aprofundam o cerco à corrupção e mostram como Brasil clama por mais velocidade no processo de punição de corruptos e pela recuperação do dinheiro público desviado – item também previsto no debate de hoje na Câmara.

Veja aqui as medidas do MPF: http://combateacorrupcao.mpf.mp.br/10-medidas

Crédito da Imagem: MPF. 

Só Poseidon pode salvar a Falésia Cabo Branco?

  A Falésia de Cabo Branco voltou a gritar e a ruir no fim semana. Mais um pedaço de um símbolo da cidade fez-se cal ou sal no mar do Atlântico. O cidadão de João Pessoa precisa começar a orar urgentemente para a divindade do mar que a tradição grega nos ensinou como sendo Poseidon. É preciso nos voltarmos para Poseidon, conhecido como um deus vingativo, mas também colaborativo. Vamos esperar que ele, com a força do seu tridente, nos ajude a restaurar o ambiente da falésia de Cabo Branco que vive agora mais uma disputada onda de discursos entre […]

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A Falésia de Cabo Branco voltou a gritar e a ruir no fim semana. Mais um pedaço de um símbolo da cidade fez-se cal ou sal no mar do Atlântico. O cidadão de João Pessoa precisa começar a orar urgentemente para a divindade do mar que a tradição grega nos ensinou como sendo Poseidon.

É preciso nos voltarmos para Poseidon, conhecido como um deus vingativo, mas também colaborativo. Vamos esperar que ele, com a força do seu tridente, nos ajude a restaurar o ambiente da falésia de Cabo Branco que vive agora mais uma disputada onda de discursos entre a Prefeitura e o governo do Estado.

Caprichoso em sua serena lentidão, o prefeito diz que não fez a obra de contenção da fúria do mar, porque a Sudema (Superintendência do Meio Ambiente) não emitiu licença ambiental. A Sudema rapidamente deu o troco informando em uma nota seca que o projeto de drenagem urbana daquela área lhe foi entregue de forma incompleta. Disse ainda que falta o projeto de recuperação e reflorestamento. Também faltam os planos de obra de execução do projeto de terra da falésia.

“Tão logo estes materiais sejam entregues, a autarquia irá analisá-lo visando o licenciamento da obra”, afirma a nota da Sudema.

A questão é: por que uma intervenção tão importante para o meio ambiente, o urbanismo, o turismo da cidade de João Pessoa precisa passar por essa verdadeira odisseia? Sabemos que somente o Ministério da Integração Nacional teria garantido desde 2011, R$ 27 milhões para projetos de defesa civil, que incluíam construção e manutenção de barragens e proteção da falésia do Cabo Branco. Tem mais recursos nessa linha oriundos de emenda do deputado federal, Manoel Junior.

O próprio prefeito disse numa rádio na tarde desta segunda-feira que tinha dinheiro para a obra. Então o que nos falta? Nos faltam a sensatez, a conversa franca e honesta dos envolvidos na recuperação da falésia, antes que ela seja apenas uma foto nos livros escolares. Uma saudade urbana e ambiental que vamos contar aos nossos netos.

Mas penso que essa sensatez não vem, porque me parece que desde 2014, após a eleição para o senado, toda obra local é disputada, judicializada, investigada. Naquela área já tivemos uma praça destruída, vias urbanas interditadas, ciclistas e pedestres proibidos de circular. Uma Santa teve sua cabeça decepada ali. Quando uma Santa perde a cabeça, só mesmo apelando para Poseidon. Por isso rogo ao deus do mar que em sua Justiça proteja a área, porque enquanto o prefeito briga com o governo do Estado, a falésia vira sal.

Sobre nossas gambiarras e os tapetes vermelhos de NY

  Estes dias, saindo do bairro dos Estados, entrei na Av. Epitácio Pessoa. Assim que cruzei uma faixa azul, que marca a separação entre os carros e os ônibus, fui literalmente ameaçado por um motorista de ônibus que, em altíssima velocidade, avançou para além de sua própria faixa. Detalhe curioso: há pouco mais de 50 metros teria uma parada de ônibus onde um usuário do transporte coletivo o aguardava. Mas ao invés de andar em sua própria faixa, o motorista preferiu rugir ameaçadoramente para cima do meu carro. Me livrei do problema rápido, mas fiquei pensando: para onde estamos indo […]

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Estes dias, saindo do bairro dos Estados, entrei na Av. Epitácio Pessoa. Assim que cruzei uma faixa azul, que marca a separação entre os carros e os ônibus, fui literalmente ameaçado por um motorista de ônibus que, em altíssima velocidade, avançou para além de sua própria faixa. Detalhe curioso: há pouco mais de 50 metros teria uma parada de ônibus onde um usuário do transporte coletivo o aguardava.

Mas ao invés de andar em sua própria faixa, o motorista preferiu rugir ameaçadoramente para cima do meu carro. Me livrei do problema rápido, mas fiquei pensando: para onde estamos indo no quesito transporte coletivo?

Se não fizermos nada urgentemente estamos indo para o caos. E ficaremos cada vez mais longe daquilo que a urbanista norte-americana Janette Sadik-Khan sugeriu e reafirmou neste domingo em uma entrevista ao Jornal Folha de São Paulo: ela disse que os ônibus merecem um tapete vermelho.

Eu mesmo sonho em voltar a anda de ônibus. Mas o sonho da média geral dos nossos trabalhadores é ter seu próprio carro – modo de escapar da baixa mobilidade, da maior insegurança, do atraso para chegar ao trabalho, do desconforto, do assédio e tantos outros males de origem do nosso transporte coletivo.

Os nossos planejadores de trânsito podiam escutar a voz das ruas ou ler as sábias palavras da ex-secretária de Transporte de Nova York. Sadik-Khan diz para todos:  a saída está em associar tecnologia, gestão eficiente do sistema e conforto.

Tudo isso integrado à execução de obras rápidas e baratas. Tudo que não temos. O BRT, por exemplo, há anos é apenas uma maquete na antessala de muitos governantes. Já preparado por um verdadeiro planejador do nosso urbanismo, Luciano Agra, não saiu desse estágio vegetativo das maquetes, que por serem digitais sequer poderão ganhar a vida das traças e cupins. Sem BRT, a cidade vai vivendo de contorninhos arranjados, gambiarras e outros bichos no trânsito.

A urbanista Janette Sadik-Khan usa uma metáfora muito boa para falar das ruas e do transporte coletivo:  “As nossas ruas ainda estão na versão 1.0 e, diferentemente de um iPhone, não vão se atualizar sozinhas”. Nossas ruas vão precisar, eu acrescento, planejamento e firmeza das lideranças e governos para acelerar a criação desse tapete vermelho para o transporte público, cuja referência maior ainda é retomada de Curitiba (foto)

Enquanto esse tapete não vem, vamos perdendo dinheiro, tempo e liberdade. Sim porque o transporte coletivo é uma questão de economia produtiva e de liberdade. A economia perde cada vez que o trabalhador, a dona de casa e o estudante deixam horas livres no aguardo de um ônibus em desconfortáveis paradas de transporte. A liberdade escapole de nossas mãos cada vez que nos defrontamos com a vida selvagem que é pegar um ônibus ou enfrentar um motorista ensandecido à nossa volta. João Pessoa não deve se contentar com pouco e precisa sonhar com o tapete vermelho para o seu transporte coletivo.

Na multidão ou na solidão o risco do Zika é o mesmo, diz OMS

Em um teste rápido você tem duas opções para se prevenir do risco de adquirir o Zika vírus, durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro:   ficar em casa sozinho ou estar no meio de uma multidão. Qual alternativa você escolheria? Não importa. Os riscos em áreas de transmissão são os mesmos para um encontro de massa ou para o indivíduo solitário. Este é o primeiro ponto de um relato feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que acaba de reafirmar a segurança para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Na decisão da OMS, contou também para […]

OMS

Em um teste rápido você tem duas opções para se prevenir do risco de adquirir o Zika vírus, durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro:   ficar em casa sozinho ou estar no meio de uma multidão. Qual alternativa você escolheria? Não importa. Os riscos em áreas de transmissão são os mesmos para um encontro de massa ou para o indivíduo solitário. Este é o primeiro ponto de um relato feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que acaba de reafirmar a segurança para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

Na decisão da OMS, contou também para amenizar o terrorismo do Zika o fato de que o Brasil estar entrando no período do inverno quando a doença transmitida pelo Aedes aegypti tem uma baixa histórica. Em outras palavras: o Aedes é um atleta de verão.

Na reunião desta terça-feira (14), o Comitê de Emergência da OMS afirmou que é muito baixo o risco de propagação internacional do vírus. Mas, em sua declaração, manteve algumas recomendações que servem para o cidadão comum ou para o turista que vem aos nossos tristes trópicos, para lembrar Claude Levi-Strauss. Entre estas recomendações aparece a orientação para as grávidas evitarem áreas de riscos. O cidadão deve também assegurar práticas sexuais seguras. O Comitê também reafirmou que não deve haver restrições sobre viagens e comércio com os país ou territórios com a transmissão do Zika.

Mas nada disso significa uma liberação geral sobre os cuidados com a doença. Ao contrário: o Comitê da OMS reafirmou que a infecção pelo vírus e seus outros distúrbios neurológicos e congênitos são “uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional”. Isso vale para o Brasil pré-Olímpico e principalmente para o pós-Olímpico, quando todos nós os cidadãos brasileiros ficaremos na solidão de nossas doenças e na precariedade de nossa saúde.

A declaração da OMS acaba reafirmando a necessidade que temos de ficarmos vigilantes e, principalmente, atentos às pesquisas de prevenção e cuidados com a doença.

“Duas vezes não se faz”. Não se erra, João Pessoa

Tem um versinho curto e delicado de Manoel de Barros que rodeia minha cabeça estes dias: “Hoje eu desenho o cheiro das árvores”. Está na sua obra “O Livro das Ignorãças”. Outra imagem que me apareceu com frequência nas últimas horas foi construída por um outro poema, nascido das cores e linhas do professor e artista plástico Hermano José. Com o seu poeminha quase mar “Duas vezes não se faz”, Hermano nos deixou um alerta forte sobre um tema que deve aparecer com força e com “ignorãça” de hoje até sábado, considerada oficialmente “Semana do Meio Ambiente”. Encontro em Hermano […]

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Tem um versinho curto e delicado de Manoel de Barros que rodeia minha cabeça estes dias: “Hoje eu desenho o cheiro das árvores”. Está na sua obra “O Livro das Ignorãças”. Outra imagem que me apareceu com frequência nas últimas horas foi construída por um outro poema, nascido das cores e linhas do professor e artista plástico Hermano José. Com o seu poeminha quase mar “Duas vezes não se faz”, Hermano nos deixou um alerta forte sobre um tema que deve aparecer com força e com “ignorãça” de hoje até sábado, considerada oficialmente “Semana do Meio Ambiente”.

Encontro em Hermano José e Manoel de Barros uma potência humana, um desejo, uma atitude de cuidar do meio ambiente que não vemos em muitos gestores públicos. Muitos destes tentarão transformar a Semana do Meio Ambiente em um gesto esquálido de plantar uma árvore. Faz muito tempo, penso, que cuidar do meio ambiente não é apenas plantar árvores.

Veja-se, por exemplo, as áreas de abandono que temos em nossa cidade. Territórios antes marcados pela vitalidade seja da própria natureza, seja da arquitetura e do urbanismo planejado, ainda entre os anos 1920/1970. Na linha do poema de Hermano José, traduzido em vídeo recentemente por Marcus Villar, costumo dizer que João Pessoa é uma pérola e que ninguém tem o direito de estragá-la.

Mas estamos vendo as marcas simbólicas de nossa pérola perderem-se na inoperância e na inapetência pelo cuidado da coisa pública. O crime ambiental, podemos dizer, se caracteriza tanto pela omissão como pela ação mal feita. A nossa barreira de Cabo Branco (pintada acima por Juliana Alves), os nossos rios,  reservas da mata atlântica e nosso Porto do Capim são bons exemplos disso.

Estamos vendo a barreira sumir à nossa frente. Faço fotos para meu arquivo pessoal na falésia de Cabo Branco desde que voltei à João Pessoa, em 2005. Vejo a cada ano, a cada mês, o desabamento da barreira. Há um ano gravei um poema para a TV Cabo Branco no ambiente da falésia, próximo à estátua de Iemanjá. Voltei lá. Sentei no mesmo lugar da gravação de 2015. E vi com os olhos humanos de Hermano José e os olhos biônicos da câmera de Marcus Vilar: “duas vezes não se faz”.

Parece que os gestores estão surdos para o impacto desse desmoronamento em nossa vida social. Vão ser alterados não apenas a forma como vemos e usamos o mar, mas os trajetos de mobilidade urbana, de circulação de pessoas, de construções imobiliárias. Parte de nossa identidade, do “onde o sol nasce primeiro” está ruindo.

Em um tempo de uma obra só, que nos premiou com a multiplicação de peixes no asfalto lamacento, se fizermos o percurso de volta dos fundadores de nossa cidade, vamos encontrar uma longa lista de abandonos. Da falésia do Cabo Branco ao Porto do Capim temos um negativo ambiental muito forte. Por isso retomo na tarde de domingo o poema de Hermano José e digo: “duas vezes não se faz”. Duas vezes não se erra, João Pessoa.

I love as mulheres

Nestes tempos sombrios, de crise e intolerância, lembro sempre de uma filosofa que aprendi a ler ainda muito jovem:  Hannah Arendt. Nos mais difíceis dos meus dias, e também nos dias livres, sempre recorro a um conjunto de gente morta que me ajudou a chegar aonde estou; uma gente que me mostrou como é bom ver com os olhos livres. Hoje foi um desses dias, quando logo cedo topei com uma coisa que parecia para alguns o fim dos tempos. A polêmica era sobre a correção ou não de algumas mulheres que teriam pichado um monumento público na cidade de […]

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Nestes tempos sombrios, de crise e intolerância, lembro sempre de uma filosofa que aprendi a ler ainda muito jovem:  Hannah Arendt. Nos mais difíceis dos meus dias, e também nos dias livres, sempre recorro a um conjunto de gente morta que me ajudou a chegar aonde estou; uma gente que me mostrou como é bom ver com os olhos livres. Hoje foi um desses dias, quando logo cedo topei com uma coisa que parecia para alguns o fim dos tempos.

A polêmica era sobre a correção ou não de algumas mulheres que teriam pichado um monumento público na cidade de João Pessoa. Tem gente que parte sempre de uma premissa complicada para explicar as coisas. Muitos foram apressados no julgamento do movimento das mulheres. Elas protestaram contra a violência, enfrentaram nas ruas de nossa infância a cultura do estupro.

Não tem violência maior contra uma mulher. E as estatísticas são cruéis. Mas não quero falar aqui de números. Quero colocar meu olhar humilde sobre a ação das mulheres que deixaram suas marcas num monumento kitsch à beira mar.

Ao invés de ir à mídia e às redes sociais para criminalizar ainda mais às mulheres, o poder municipal e seus defensores podiam ter-se lembrado de algo fundamental: a força expressiva e simbólica que existe num fato simples  quando um povo, um grupo social, uma multidão usa um espaço público, se apropria dele.

Foi isso que as mulheres fizeram quando pintaram as palavras de cimento em frente ao Busto de Tamandaré. Vi frases, mãos, rabiscos e linhas de uma multidão de meninas, moças ou não, donas de casas, amantes, militantes. Não importa a sua condição humana, para usar a expressão de uma obra valiosa de Arendt, o que estava expresso ali naquelas palavras de cimento à beira mar era parte do corpo, do sofrimento e da indignação das mulheres frente à violência.

E tudo foi deixado com gauche, a tinta da delicadeza. Mas o poder tratou o ato simbólico das mulheres como vandalismo. Eu diria que se o poder fosse sábio, o que não é, deixaria ali pelo menos por alguns dias as manchas e marcas dessas mulheres. Elas se apropriaram de um falso monumento e até deram vida ao que não tem vida, nem estética, nem beleza. Vi nas marcas vermelhas que picharam a coisa à beira mar uma extensão dos corpos das mulheres.

Um corpo muitas vezes desrespeitado nas ruas, nos coletivos, nos metrôs, nos becos ou nos bailes da noite e solidão dos quartos.  Ao invés de reafirmar o clichê de vandalismo, o poder, qualquer poder – principalmente o qualquer –  deveria  se lembrar dessa condição feminina. Poderia dizer, no melhor estilo colonizado: I love as mulheres, e não à coisa kitsch à beira mar.

 

Zika: a guerra é outra

Esta semana ao sair de casa topei com um grupo de soldados do exército. Jovens, conversavam na esquina de uma rua em Manaíra. Parei e um deles me entregou um panfleto com a foto de um mosquito. Em outra época talvez me entregasse uma foto de um militante comunista procurado por alguma ação. Talvez eu mesmo fosse o procurado. Mas não era. Os rapazes do quartel estavam em um tipo especial de combate. Uma ação social importante que mostra o outro lado dos quartéis em tempos de democracia: um exército de soldados está nas ruas, nas esquinas e favelas (pobres […]

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Esta semana ao sair de casa topei com um grupo de soldados do exército. Jovens, conversavam na esquina de uma rua em Manaíra. Parei e um deles me entregou um panfleto com a foto de um mosquito. Em outra época talvez me entregasse uma foto de um militante comunista procurado por alguma ação. Talvez eu mesmo fosse o procurado. Mas não era. Os rapazes do quartel estavam em um tipo especial de combate. Uma ação social importante que mostra o outro lado dos quartéis em tempos de democracia: um exército de soldados está nas ruas, nas esquinas e favelas (pobres e nobres) no esforço de controlar os danos do mosquito que provoca uma tríade de doenças: zika, dengue e chikungunya.

Conversei com os soldados sobre um terreno abandonado pertinho da minha casa. Lá dentro tem lixo, entulho dos vizinhos, garrafas, pneus e toda sorte de mosquitos e outras pragas. Disse a eles que acho louvável a ação. Assim como louvo a presidente do País ir à televisão chamar todos para combater um mosquito. Mas, convenhamos, a verdadeira guerra é outra. Se o país e a cidade de João Pessoa querem de verdade combater a zika, a dengue e outros males que contra a saúde, precisam olhar para outro horizonte. É que existe uma grande contradição: enquanto todos miram o mosquito, temos a ausência de uma política concreta de enfrentamento do problema real que é a falta de saneamento, aliada a uma séria limpeza cotidiana do lixo da cidade.

Enquanto conversava com os jovens soldados do exército brasileiro, virei meu olhar para as calçadas da rua. Não tinha uma só calçada limpa. Todas, mas todas mesmo, estavam repletas de lixo acumulado há quatro ou cinco dias. Como combater seriamente um mosquito que gera uma doença grave em nossos bebês recém-nascidos, se o governo local não consegue sequer limpar o lixo cotidiano? Esse é o nosso drama do favelário nacional, para lembrar um poema do Carlos Drummond de Andrade. O povo é chamado a exercitar sua cidadania. Mas o governo não responde no mesmo ritmo.

Manaíra, Mandacaru, Mangabeira. Não importa o nome do lugar. Pode ser São José, Grotão, José Américo, Geisel ou Castelo Branco. Não importa a patente – general, coronel ou tenente. Todos estamos imersos nesta guerra. Mas ao meu ver a verdadeira batalha, a batalha de maior futuro não é contra um mosquito. A guerra mesmo é outra: a guerra é contra a ineficiência, ineficácia de gestões que insistem em jogar para debaixo do tapete o dinheiro público e deixam a céu aberto o lixo de nossos dias. Mas nessa guerra as armas não podem ser as do exército, porque os instrumentos da batalha são outros e respondem pelos nomes de educação e cidadania.

Padre Zé e instituições filantrópicas pedem socorro

Nos últimos dias tive acesso a uma ata de reunião realizada no Hospital Padre Zé na qual fica clara a necessidade de uma ampla mobilização da sociedade, das instituições e dos poderes constituídos (Municipal, Estadual e Federal) no sentido de garantir uma segurança financeira para este Hospital. Na ata, o Conego Egídio de Carvalho Neto monta um retrato realista do Hospital, que desde 1965 vem efetivando atendimento à saúde das pessoas mais carentes de João Pessoa e toda a Paraíba. Ele afirma primeiramente que a situação do Padre Zé não é diferente das demais instituições filantrópicas da cidade e região […]

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Nos últimos dias tive acesso a uma ata de reunião realizada no Hospital Padre Zé na qual fica clara a necessidade de uma ampla mobilização da sociedade, das instituições e dos poderes constituídos (Municipal, Estadual e Federal) no sentido de garantir uma segurança financeira para este Hospital. Na ata, o Conego Egídio de Carvalho Neto monta um retrato realista do Hospital, que desde 1965 vem efetivando atendimento à saúde das pessoas mais carentes de João Pessoa e toda a Paraíba.

Ele afirma primeiramente que a situação do Padre Zé não é diferente das demais instituições filantrópicas da cidade e região metropolitana, como atesta a Irmã Fátima, do Hospital de Santa Rita. O Hospital que o Padre José Coutinho deu forma na década de 1960 sofre tanto quanto seus pacientes, dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS): não consegue pagar seus profissionais da saúde. Mais: se nada for feito, o Padre só suporta seis meses. O Hospital de Santa Rita fechará serviços importantes em 60 dias.

Trata-se de um cenário de caos na saúde e todas as lideranças de João Pessoa e Paraíba precisam se mover muito rapidamente para uma solução como forma de evitar, por exemplo, os graves problemas que o Rio de Janeiro sofreu recentemente. Na ata da reunião do Padre Zé, o médico José Mario Porto, alerta para a urgência de uma ação enérgica dos órgãos públicos e políticos locais no sentido de constituir uma frente para defesa de nossa saúde. Vale lembrar que o Padre José Coutinho morreu em plena ação para arrecadar dinheiro para o seu trabalho social com os mais carentes. Em 3 de novembro de 1973 ele fazia uma ação no Cemitério da Boa Sentença quando passou mal e veio a falecer dois dias depois. Hoje, em pleno século XXI marcado pelo terrorismo da zika, da dengue e chikungunya, a herança do Padre Zé pede socorro.