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Há quase sete dias não consigo escrever uma palavra. Fico à procura da letra certa, de uma combinação alfabética que possa revelar este momento pelo qual nossa vida passa. Olho à janela da minha sala e vejo papoulas floridas e uma trepadeira se agiganta sob nosso telhado no outono que se aproxima. Uma tartaruga se desloca lenta e passivamente debaixo do carro parado na garagem natural. E passarinhos cantam e picam sementes espalhadas na grama.. Mangas e laranjas envelhecem sobre a mesa de madeira. Eu envelheço. Não consigo expressar meu sentimento de agora. Um vazio parece tomar conta do meu corpo e fico esperando a coisa chegar. Coisa – assim mesmo, simples e seca. Uso-a, lembrando de memória, uma obra de Jean Paul Sartre, com a qual tive um encontro ainda na adolescência em Jaguaribe.

É algo indescritível que se apodera do nosso ambiente, do nosso ser. Invade o universo e não nos promete nada, a não ser a ameaça de aparecer a qualquer instante. Assim, sem aviso prévio, transforma o dia em noite. Esperança vira medo e assombração. Não sou muito católico, ainda que várias pessoas encontrem forte influência de Pascal em alguns dos meus poemas, mas tento viver sob o signo da esperança e do amor segundo Santo Agostinho – e espero um instante melhor para vida brasileira. E, como nos ensina a Torá, o que desejamos para cada um de nós, assim desejamos para a humanidade.

Com esta ideia numa manhã de domingo, após uma noite de angústia e apreensão, abri a janela da minha sala na praia de Carapibus – ainda uma pequena ilha onde restauro minhas energias para novas invenções da vida. A cena que descrevi acima deu algum conforto provisório ao meu corpo e à minha mente cansada. E na sequência do meu dia acerquei-me de uma xícara verde,  com a qual tomo minhas doses diárias de café há quase exatos 21 anos – desde que a ganhei de presente ainda em Brasília.

É uma relíquia, entre algumas que preservo, que serve de riso para os meus filhos. Como um ser humano pode preservar uma xícara de café por tanto tempo? A essa pergunta nunca respondo e passo da sala ao escritório onde meu olhar procura alguma obra de literatura, de filosofia ou sociologia que possa confortar os aperreios dos meus dias.

Meu olhar me arrasta logo para a coleção de Walter Benjamin e mira na sequência Hannah Arendt. Aparece à esquerda um Maffesoli, um Giddens e desvio o foco para a literatura. Laurence Sterne dorme ladeado por Machado de Assis. De Alencar salto para Mário de Andrade e os demais modernistas. Abraço Drummond, João Cabral e Chico Alvim está logo ali, com Maria Angela e Ana Cristina Cesar.

Na prateleira de baixo navego com Maiakovski, Alberto Moravia, Sartre, André Gide e Camus. Me volto para James Joyce e Rainer Maria Rilke sorri junto com Yeats. Fico quieto e passivo. O silêncio de todos eles me incomoda. Meu café esfria e exaspero. Não consigo encontrar uma palavra, um conforto entre tantos autores que sempre me acompanharam em tantos lugares, em momentos felizes ou de alta melancolia.

Em meu exílio forçado destes dias não tenho palavras. É isso, penso inquieto. Mas enquanto volto à cafeteira atravessando um corredor cheio de obras de arte vejo a janela ainda aberta. Restauro o café na minha xícara envelhecida pelos anos e me lembro que é preciso fazer uma travessia. Travessia, talvez seja a palavra –  pois meu caminho é de pedra e ainda posso seguir, como me lembra Milton, o Nascimento.

Marcus Alves

Imagem: desenho de Antônio Valentim, 7 anos.