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Em mais um final de semana de pandemia e isolamento social por conta do coronavírus, somos levados a refletir sobre os destinos do jornal A União. O primeiro fato que nos leva a isso: três importantes personalidades do nosso mundo intelectual e jornalístico foram dispensadas de publicarem suas crônicas no jornal. O segundo: um outro jornalista aproveitou o momento e pediu que o próprio jornal  A União fechasse suas portas.

Os dois casos precisam ser pensados à luz de uma reflexão maior, mais extensiva. Para isso será necessário retomar algo do passado recente e identificar o estado de arte do nosso próprio modo de encarar o jornal e o jornalismo.

Existe um razoável consenso da crise destes dois modos de fazer uma comunicação pública. Mas estamos errando no jeito de enfrentar possíveis soluções, que não são fáceis. Muitos bons jornais estão pensando tais alternativas. Há alguns anos acompanhei o problema a partir de questionamentos do Le Monde, na França e como a direção daquele jornal e a própria redação procuravam maneiras de sobreviver e avançar.

Me parece que a solução deles não foi pela porta mais fácil:  o fechamento. O apagar das luzes dos grandes jornais como Le Monde, Folha, The New York Times, Estadão ou o Globo foi retardado por uma política de intensificação de dois tipos de esforços.

A primeira ação foi no sentido de procurar uma especificidade para o jornal impresso, que escapasse do mimetismo e da velocidade promovidas pelos veículos digitais. Apostou-se em um trabalho voltado à interpretação, à análise dos fatos, colada à investigação. Aquilo que os meios digitais não conseguiam garantir ao leitor, o impresso deveria ofertar.

A segunda, diretamente associada à primeira, foi investir na qualificação dos seus profissionais apostando na qualidade dos seus textos. Estes grandes veículos não se renderam a onda e não fecharam. Foram se reinventar.

Estão criando cultura nova e híbrida do jornalismo que articula o mundo digital e o impresso, um suportando o outro. Faz sentido se olharmos os números, que muitos defensores da existência exclusiva da comunicação digital não estão vendo: dados do Centro de Pesquisas Pew, em Washington, indicam que a maior fatia de toda verba publicitária investida na indústria da comunicação (e do jornalismo) foram parar em cinco empresas: Google, Facebook, Yahoo, Microsoft e Twitter. As cinco abocanharam quase dois terços dos 60 bilhões de dólares  – mais de R$ 190 bilhões – em publicidade digital (65%).

Os dados são tratados por Peter Preston, colunista do Guardian e do Observer, em um artigo no qual mostra as armadilhas do mundo digital da comunicação e sugere a vitória do modelo Le Monde.

O dano da vida em estado mínimo

Alguns dos meus poucos leitores podem contra argumentar que estou falando de grandes empresas jornalísticas. Não aplicariam meus argumentos para jornais locais, muito menos para um jornal da esfera estatal como A União. É exatamente aonde quero chegar e mostrar o que de verdade tem me incomodado nos últimos anos.

Estamos nos acostumando muito facilmente a querer o mínimo das coisas. Quando as redações brasileiras começaram a sofrer o impacto da informatização, terceirizaram os jornalistas. Conheci muitos que aceitaram ser demitidos e abrir sua empresa, na ilusão que um dia seriam empresários da comunicação. Na sequência foram minimizando cada vez mais as nossas formas de vida.

A linguagem precisava ser mínima. O texto mínimo. O Estado mínimo. A educação mínima. A mínima cultura. Nos acostumamos as seguir roteiros estabelecidos por lideranças mínimas. Essa cultura nos levou à situação atual: sobrevivendo sempre do mínimo e alguns se esforçando para enfrentar os minions bárbaros nas ruas e nas esferas digitais.

A ignorância das ruas foi pré-construída pela desinformação, pela incapacidade de ler um texto jornalístico, uma crônica delicada. A palurdice das esquinas foi inventada antes pela ausência de uma cultura estética, que afastou uma multidão de brasileiros dos museus, das galerias e os fez crer somente na sonoridade do movimento das bundas (desculpem a expressão). O jornal impresso era, em grande parte, um instrumento de amenização do dano desse comportamento, em parte por sua linguagem referencial, que nos obrigava a conexão com o mundo real, concreto a exigir uma dose de humanidade, de criatividade e de invenção.

Quando o jornal e o jornalismo diminuem acrescentamos mais um tijolo nesse processo de infantilização e barbarização das culturas brasileiras e mundiais. Dito isto, vou finalizando apostando em numa reflexão. Talvez a pergunta do momento não seja fechar ou não fechar o Jornal A União.  O problema é: como um jornal mantido por verbas públicas pode criar instrumentos que sejam capazes de ajudar – a ênfase aqui é no ajudar – a diminuir nossa pobreza intelectual e acrescentar algo à esfera pública da educação e da cultura?

Dizendo de outro modo e na linha do Le Monde, da Folha ou do Times: como um pequeno jornal local pode ter algo que seja só seu, sua especificidade, e que construa valores para seu povo e seus leitores?

Por Marcus Alves

Imagem: O peixe fora d´água – desenho de Antônio Valentim