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Por Marcus Alves

O jornalista e colunista social Anchieta Maia tem feito sucessivas consultas por meio de sua página no facebook sobre como os pais estão avaliando o ensino à distância no contexto da Paraíba. Sua intenção é justa e tenta acompanhar as impressões das famílias em torno de um tema da ordem do dia, neste período de pandemia Covid-19 e isolamento social. Vi alguns comentários que no geral mostram a adesão e boa avaliação das famílias, mas também muitos problemas e dificuldades.

Todos foram pegos de surpresa com a necessidade de migração do sistema educativo; nem escolas, nem famílias – muito menos os governos – estavam preparados para essa novidade, ainda que a educação à distância tenha entrado na agenda geral da sociedade já há várias décadas.

O modelo esteve presente na sociedade como uma alternativa, como uma possibilidade e – não nos assustemos – como uma matriz reservada talvez para as classes sociais mais pobres cujos filhos poderiam acessar, já em um nível de ensino superior, alguma faculdade após constatar que o ensino público federal não acolhe todos com as mesmas oportunidades.  Agora é algo obrigatório, motivado pelo Covid-19, e colocado de forma transversal para todas as séries – da creche à Universidade, passando pelo ensino fundamental e médio.

Aí começamos a descobrir os problemas do modelo, suas consequências, seus desdobramentos e limites. A educação à distância, além das ferramentas técnicas e canais de distribuição das mensagens, pressupõe um maior domínio de metodologias que precisam ser renovadas. Neste campo, a educação não pode apenas reproduzir métodos tradicionais usados secularmente no ambiente escolar.

O aluno, sobretudo, em idades menores do ensino fundamental, precisa ter estímulos variados frente à tela do computador e, muitos pais relatam suas dificuldades para manterem a disciplina e atenção da criança.

É uma aula. Não é um vídeo ou desenho animado que a criança pode ver descompromissada. Um vídeo do Netflix ou de qualquer operadora de TV está ali, sempre presente,  e o menino ou menina vê de forma difusa (enquanto monta uma arquitetura de prédio, brinca com um boneco do MacDonald ou faz um lanche). A aula necessita ter variados elementos lúdicos e interativos. Isso tudo demanda um esforço muito maior dos docentes que se esmeram no cuidado da fala, na apresentação da imagem e no esforço de focar essa atenção infantil.

Os conteúdos necessitam ser igualmente pensados e aqui temos um problema realmente grande uma vez que os conteúdos atuais foram todos concebidos para uma educação presencial. Hoje tenho observado que as escolas estão adaptando em uma tentativa de manter o compromisso educacional e não prejudicar o ano letivo dos alunos.

Outra faceta que a migração educativa provocou é em relação a contribuição das famílias. Estas precisam estar mais presentes e atuantes, sobretudo os pais de crianças menores. Um adolescente de 13 a 17 anos tem condições muitos mais adequadas para gerenciar o sistema ou a plataforma que sua escola usa no processo. No caso das crianças, entre 6 e 10 anos, os país são a fonte de alimentação desse sistema com a colocação de tarefas e o gerenciamento de outras demandas pedagógicas.

Além disso os pais também precisam ficar atentos ao próprio procedimento das aulas, a regulação de um aparato tecnológico antes não demandado e da mesma forma fazer um maior acompanhamento sistemático das tarefas diárias. Isso implica uma energia a mais para as famílias, desde o cuidar do ambiente da sala de aula (agora realizada no quarto, num terraço de casa ou escritório) até a interferência em ruídos extra sala de aula (barulhos de carros, som de vizinho, cachorro e outras variáveis).

A educação à distância, nesse sentido, está sendo um desafio para escolas, profissionais da educação e famílias. O isolamento social promovido pela pandemia da Covid-19 vem mostrando que a sociedade brasileira, e a paraibana, não tinham a menor consciência do que esse modelo realmente exige.