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Eu desejei muito ser Rubem Alves. Lia seus textos e ficava maravilhado por uma capacidade única do domínio das palavras. Era leve. Era denso. Tinha conteúdo e uma graciosidade capaz de nos fazer sorrir silencioso. Sempre me lembro de seus escritos e estes dias me deparei com um que me conectou muito  ao nosso tempo presente.

Falava sobre seu desejo de ser médico. Está no livro “Ostra feliz não faz pérola”. O próprio título dessa obra guarda uma sabedoria única. Mas lá, nas lembranças daquele Alves, aparece uma sugestão do médico como um Sherlock Holmes: “valendo-se de pistas mínimas, o médico tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente”.

Mas os médicos que povoavam o imaginário do escritor já não cabem nos dias de hoje. Ele representava o médico como herói solitário que atendia unha encravada, caxumba, furúnculo, tosse de cachorro e outros males que já não amedrontam tanto o cidadão comum. Talvez essas doenças e a própria medicina apareçam mais como uma fotografia na parede. Uma memória que nos lembra a nossa própria humanidade.

O perfil do médico de hoje é muito diferente do passado porque a sociedade é fruto de uma continua e interminável onda de mudanças. As doenças também mudam e a pandemia do coronavírus está aí para nos assombrar e nos advertir. O Brasil está aprendendo a lidar com o vírus. Principalmente vai precisar se reeducar para o novo convívio social após esse isolamento imposto por este novo mal global.

Mas uma coisa é certa e isso Alves  ensinou: o médico continua aqui, na esquina, nos novos e velhos hospitais. Continua aqui com a sua característica mais forte: combinar o saber, o conhecimento técnico, e o amor. Sigo o raciocínio do nosso autor: a alma do médico se encontra no amor.

É preciso muita sensibilidade para ser médico, também nos ensina o coronavírus. Rubem Alves queria ser médico. De algum modo o foi. Como eu queria ser Rubem Alves.

Marcus Alves

Arte: Juliana Alves  XuKuru- Aquarela/sem título – 2019