Angelus Novus Paul Klee

Por Marcus Alves

 

Aprendi escutando a banda paulista Mercenárias, composta só por mulheres, um fragmento de poema que vem sempre à minha cabeça: “nunca a águia perdeu tanto tempo, como quando quis aprender com o corvo”. É, na verdade, um verso de um poema grandioso de William Blake intitulado Provérbios do Inferno, que o punk rock provocativo dos anos 1980 traduzia e amplificava para todos nós. Esse universo Blake-punk retornou à minha memória a partir de uma conversa remota que mantive com o jornalista e escritor Helder Moura.

Falávamos do tempo ou da ilusão de termos tempo durante esse isolamento social motivado pela pandemia do Covid-19. Ele comentava que a gente sempre procurou ter tempo livre para escrever e agora que o temos, não conseguimos porque a angústia e o temor da morte que sorri na esquina nos paralisam.

Da minha parte traduzi isso da seguinte maneira: amigo, esse tempo não é livre. O tempo, assim como ele se nos apresenta nessa experiência social de agora, é uma prisão.  É um tempo que nos foi roubado e participamos de uma armadilha que está muito além do que a sociologia da Escola de Frankfurt nos ensinou.

No pensamento crítico de T. W. Adorno o tempo livre do trabalhador é sequestrado pela indústria da cultura que o transforma em recurso primeiro para o consumismo.  O tempo, nesse sentido, era objetivado nas coisas que consumimos e que nos esgotam. Nos levava a um sentimento de quase êxtase e de falsa ideia de descanso.

A experiência de agora cria uma nova dobra do tempo. Daí que a vivenciamos como sendo recheada de puro cansaço e angustia paralisantes. O tempo, o vento e o vírus que nos açoitam não permitem o prazer do instante. O instante que se esgota num aqui e agora, no carpe diem de um poema, do pôr do sol, do abraço amigo, do olhar cuidadoso da amada.

É um tempo selvagem. Um momento que nos obriga a darmos um salto para o simbólico para não morrermos na escassez do nosso ar. No pós- pandemia talvez a gente tenha que reinventar a nossa própria noção de tempo e de história – emprenhados pela visão de história que Walter Benjamin construiu da história a partir do Angelus Novus de Paul Klee.

O Anjo de Klee, como nos ensinou Benjamin, estava na fronteira entre o passado e o futuro. Empurrado por uma tempestade de poeira, ele nos força a olhar o futuro e nos mantém presos ao passado, à tradição que precisamos sempre romper e restaurar. Benjamin nos ajuda, a partir da obra de Klee, a reinventar a tradição.

Mas tudo isso estava apegado ao modelo da própria modernidade com suas crenças no progresso e no futuro. Fortes esperanças. O tempo aí era uma interface entre a tempestade que se aproximava e os primeiros raios de sol que poderiam alumiar a vida e a morte.

Hoje o tempo se traduz menos como esse movimento de semi-paralisia do Angelus Novus e sua tempestade. É um tempo que nasce morto, sabe Helder? Um tempo aprisionado, sabe Benjamin? Um tempo perdido… sabe Blake?  O tempo, o vento e o vírus que nos assombram ameaçam a nossa esperança. É disso que devemos cuidar, a isso devemos nos dedicar enquanto conduzimos nosso arado sobre os ossos dos mortos, como diria o próprio Blake.

 

Dedicado ao amigo Helder Moura

Imagem: Angelus Novus, de Klee