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Por Marcus Alves

 

A atriz Regina Duarte voltou a se expressar publicamente nesta sexta-feira (22).  O seu novo discurso veio por meio de um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, o famoso “Estadão”. Apareceu mais centrada, como é próprio da linguagem escrita. Acabou, no entanto, reafirmando muita coisa do que já havia dito antes.

Primeiro a atriz afirma sua consciência de que seria “alvo de críticas” ao aceitar o convite do presidente da República para ocupar a Secretaria Especial da Cultura. Regina coloca sempre a culpa no Outro, ora na imprensa, ora na classe artística.

Nesse sentido repete a tendência incrustada na elite política brasileira que sempre se diz perseguida. Estamos cansados de ver esse filme velho de lideranças com seus discursos de vítimas. São sempre vítimas da Justiça, da Polícia Federal e de demais órgãos de controle. Quando denunciados por ações de corrupção são vítimas. Ao serem criticados por ações ou omissões na gestão da coisa públicas são vítimas.

No seu artigo Regina Duarte se diz espantada com “a total ausência de substância das sentenças condenatórias que me dirigem na praça pública das redes sociais – esse potente megafone usado por grupos organizados dentro e fora da classe artística”.  Também fala que não se viu no centro de um debate entorno da relevância de uma política pública voltada para as artes.

O artigo da atriz nos alerta mais uma vez como Brasil sofre hoje por uma total falta de reflexividade. As marcas do seu discurso indicam esse caminho. Ela era, enquanto Secretária de Cultura, a principal responsável para pontuar essa política pública. Não o faz e joga para um Outro imaginado a responsabilidade por sua omissão.

O fato, por ela observado, de que há mais de meio século é uma pessoa dedicada às artes e à dramaturgia brasileira não a exime de culpa. Ali não estava em jogo a sua capacidade de interpretar personagens, mas sua vontade de, saindo do teatro, pensar formas de estimulo às artes plásticas, à literatura, à música, ao cinema, às culturas populares e toda a diversidade e multiplicidade das linguagens da nossa gente.

Mas o que move meu interesse em comentar este primeiro artigo da ex-secretária não é a periferia dos seus argumentos contra a infodemia (neologismo inventado por quem deseja o controle da imprensa). O meu motivo é sua afirmação: “o País precisa de uma política cultural que transcenda ideologias”.

Isso simplesmente é impossível. Aqui ou em qualquer lugar do mundo, dado que a ideologia não é uma roupa velha que o gestor-público larga em seu guarda-roupa luxuoso antes de ir ao encontro com o objeto que administra ou gerencia. O ser humano nessa condição (gestor) deve controlar seu gosto pessoal, sua subjetividade e fazer avançar ações que possam valorizar, de forma impessoal, as manifestações culturais e artísticas de uma coletividade.

Dizendo de outro modo: o gestor pode não gostar de um determinado estilo de música ou gênero literário, por exemplo. Está no seu direito. Mas a sua condição pública o obriga a cuidar, preservar ou estimular uma multiplicidade e variedade de estilos ou fenômenos culturais. Mas Regina Duarte, na situação de secretária de cultura ou de atriz, não teria condição de vislumbrar esse conjunto de situações. Daí que prefere culpar imprensa e “classe artística” pelo que não fez.

Crédito: Reprodução/Internet