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A área de matemática ocupa um lugar especial na pesquisa e no ensino superior no Brasil, como mostra o matemático Gregório Pacelli Feitosa Bessa, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutor em Matemática pela State University of New York at Stony Brook, ele esteve na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde participou de aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Matemática. Representante da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior na área de Estatística,  Matemática e Probabilidade, o professor Pacelli concedeu entrevista ao Virtupb na qual defende um novo modelo de ensino, faz crítica a geração educada sob o modelo de Paulo Freire e indica que os matemáticos devem ocupar mais espaços no Ministério da Educação.

Virtupb: Qual a avaliação que o senhor faz hoje do cenário atual da Capes, especificamente para a área de matemática?

Gregório Pacelli: Olha só, a matemática em geral, como área,  está crescendo, está bem. Nós estamos passando por dificuldades financeiras no país, temos corte de recursos; nós temos uma dívida rolada em déficit de R$ 100 bilhões todo ano que se acumula. Então, deve haver um reajuste e de onde arranjar dinheiro para esses lugares, né?!. Mas como área está crescendo. É uma área de muito sucesso no país e internacional, sempre foi internacional.

Entre todas as áreas, a matemática, ao meu ver, é a que tem mais sucesso. Nós temos um medalhista, medalha Fields que equivale a um Prêmio Nobel, não tem nenhum precedente no hemisfério sul, aqui na América Latina, ninguém ganhou a medalha. É um prêmio de altíssimo prestígio.  É a maior medalha de matemática do mundo e o ganhador foi educado no Brasil. A nossa matemática, que tem uns 60 anos de pós-graduação no país, chegou a amadurecer, a poder produzir um matemático dessa natureza. Como área está muito bem.

Olha aqui a Paraíba têm um grupo… porque a matemática compete de igual para igual em todo mundo; não tem uma matemática tropical mais fácil. Então você tá competindo com chineses, russos, americanos e você vê aqui em um lugar seco, lugar que é perdido, esquecido por Deus como o nordeste brotar esses talentos. Brota essa matemática importante que produz, compete, publica em papers internacionais, ou seja, nossa área é um sucesso. Não sei se eu posso dizer com a minha crença, mas é um dedo de Deus na nossa casa.

Virtupb: O senhor avalia então que a matemática consegue sobreviver a essa crise?

Gregório Pacelli: Com certeza, sem menor dúvida. Eu creio que há um entendimento do país, desse pessoal que tá governando, da necessidade da matemática, das ciências básicas especialmente para o desenvolvimento do país; sem isso a gente não vai. Por exemplo, nosso país tem uma dificuldade muito grande nesses teste de proficiência em matemática e português, o teste Pisa, e já existem movimentos e grupos trabalhando na mudança de currículo, para mudança de direção, pra salvar essa geração. Essa geração é perdida. Essa geração que foi de Paulo Freire, com essa educação de Paulo Freire está perdida. Esse pessoal não sabe ler, nem escrever,  são analfabetos funcionais.  Está tendo um esforço muito grande de se recuperar.  Desde o governo passado já tinha uma noção de que sem matemática, sem português, sem ciência o país não cresce e não sobrevive no próximo século.

Então, pode ser que corte as gorduras, coisas que podem ser consideradas não tão essências, embora isso seja o julgamento de cada pessoa, eu não vou nesse mérito. Mas todo mundo tem a consciência que matemática, português e ciência são fundamentais para esse país. No Ceará, muitos anos atrás começou o numeratizar, que era alfabetizar nos números. Esse programa virou a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) que hoje tem 18 milhões de inscritos nas primeiras fases da olímpiada de matemática da escola pública, isso é uma revolução. Daqui há dez anos, você vai ver os nossos números do Pisa subir, nós vamos bater a Finlândia.

 

Virtupb: O senhor fala do modelo de Paulo Freire, mas na sua perspectiva, quais os modelos que vocês investiriam agora para melhorar essa situação?

 

Gregório Pacelli: Eu sou ignorante de Paulo Freire, não posso dizer com propriedade. Mas, o que eu percebo é que esse modelo de educação foca nos processos: como aprender e como ensinar. E o que é importante, ao meu ver, é o conteúdo que se está ensinando. Nós temos que apresentar o conteúdo real com dificuldade para que as pessoas superem e aprendam a somar, aritmética, geometria, português, o que é um verbo, o que é um predicado.  Nos cursos de pedagogia eles pouco têm conteúdo. Os professores aprendem educação, mas não aprendem o que vai educar. Eles são formados na área de educação, são pesquisadores em maneiras de educar, mas nós precisamos do pedagogo que vai ensinar na 1º à 4º série o conteúdo que ele vai ensinar.

Se eu tivesse que ensinar português, eu seria um fracasso porque tenho muita dificuldade de entender regras gramaticais. Se isso não aprende na classe,  como é que eu vou ensinar? Então, o que eu percebo é que, a grande parte dos professores que ensinam no secundário, ensinam o que aprender no ginásio. Se no ginásio já não é mais ensinado eles não vão ensinar. Então perpetua essa ignorância. Chega na faculdade é a estrutura do ensino do segundo grau, psicologia I, psicologia II, mas, como é que soma essa fração professor? Não sabe.

 

Virtupb: A ênfase agora seria a formação de conteúdos?

Gregório Pacelli: O professor tem que saber o conteúdo para aplicar. No Ceará nós estamos com um programa agora que é a Seduc Matemática, da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc). Eles fazem um teste,  imediatamente preparam o matéria, onde tenha a deficiência do aluno e vai para aquela classe com a matéria para o professor ensinar aquela deficiência. Geralmente, aritmética dos números racionais, como somar fração, como fazer proporções, geometria plana, os alunos não sabem.

Então é passado o teste e detectado se essa classe tem essa deficiência, aquela outra classe tem aquela deficiência.  E aí automaticamente tem uma equipe trabalhando nos livros, nas apostilas que são levadas ao professor e ele vai ter que ensinar aquela deficiência.

O aluno está ruim? Pega o aluno, separa e ensina particularmente naquele conteúdo que ele tem deficiência. Ou seja, eles vão alfabetizar. Hoje, grande parte dos nossos alunos chegam na 8ª série, eles não sabem entender o que está escrito, são analfabetos funcionais. Eles não sabem interpretar, não sabem multiplicar, eles não sabem somar, eles não sabem dividir. Uma pessoa dessa é incapaz de aprender qualquer profissão. Você está condenando essas pessoas a viverem na miséria. Pessoa que teve condições de ter uma educação mais elaborada, passa. A melhor maneira de distribuir renda é você dar oportunidades.

 

Virtupb: Só para concluir, a gente pode considerar, então, que existem dois mundos, pensando na matemática. Um mundo da matemática pura que conta com as pesquisas da Universidade e outro mundo da matemática secundária que envolve estudantes de ensino médio que estão precarizados?

Gregório Pacelli: O pessoal da matemática pura, desse mundo mais idealizado já está voltado para mudança de currículos, preparação de currículos do segundo grau entrando no Ministério da Educação (MEC) e começando a trabalhar em conjunto com esse pessoal. Essa é nossa contribuição. A matemática é isso, a gente precisa disso; a gente têm que fazer assim e ocupando o espaço que antigamente era dado ao pessoal da educação com a visão, claro, cada um tem sua visão, eu não estou julgando a visão de ninguém, mas ao nosso ver, é uma visão que até agora não trouxe os resultados.