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Uma moeda única para circular no Brasil e Argentina. A proposta do presidente Bolsonaro virou piada nas redes sociais. Foi criticada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Também acabou sendo desautorizada pelo Banco Central brasileiro, na medida em que a instituição afirmou que não existe estudo no sentido da criação de tal moeda.

Na verdade, a fala de Bolsonaro traz um fator positivo: recoloca na agenda econômica e política a problemática do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul). Se a criação de uma moeda cristaliza como uma piada é porque definitivamente a ideia do Mercosul precisa ser revivida.  Tal ato, de renascimento, é muito difícil – sobretudo pelo tamanho da crise na qual se encontram os países centrais do Mercado e aqui nem estou pensando na Venezuela, que a rigor nem deveria ter composto o Mercosul.

Pensando apenas no quarteto Brasil-Argentina-Uruguai e Paraguai já é uma tarefa imensa pensar uma integração. E esse processo não deve, nem pode vir a partir da ideia de uma moeda. A moeda é fruto de um conjunto de ações mais amplas que passam por um efetivo diálogo entre os setores produtivos e a sociedade civil de cada um dos países envolvidos.

Não sou otimista que isso possa ocorrer agora em um cenário de discursos conservadores e crises econômica e política. Assim como não ocorreu em passado recente, como mostrei em minha tese de doutorado desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB). Há 15 anos atrás o Mercosul era uma promessa de intensificação de uma integração pensada desde o ano de 1900 pelo diplomata Assis Brasil.

Mostrei no livro “Cultura no Mercosul – uma política do discurso”, publicado pela Fundação Astrojildo Pereira e pela Editora Plano, alguns erros históricos do Mercosul. Tais erros emergiam por meio de linhas de discurso dos principais formuladores do Mercosul. A integração era pensada como ato fundador de uma independência do Continente. A segunda linha repousava no esquecimento dos conceitos teóricos e das experiências históricas dos países que compunham o bloco. Por fim, talvez a maior das inconsistências do Mercosul: o problema cultural dos países que compõem o bloco era visto como elemento importante. A cultura tem imensa importância na integração, afirmavam os gestores da época. Mas, contraditoriamente, a cultura sempre foi secundarizada na política de formulação do Mercosul.

Esse fenômeno de secundarização da cultura atingia (e ainda marca) tantos as culturas tradicionais como as indústrias culturais, que hegemonizam os sonhos e os pesadelos da juventude de toda a América.  Existiu, no passado do Mercosul, como existe agora, uma total exclusão da cultura de massa, sobretudo da cultura jovem, como ferramenta integradora para o Mercosul. Daí que hoje, quando um presidente indica a necessidade de uma moeda única, a coisa vira piada.

O problema maior é que o Mercosul foi pensado desde as origens como bloco econômico, não como processo de integração, como foi a União Europeia, que levou mais de 50 anos para se consolidar. Diferente da União Europeia, o Mercosul nunca foi objeto de desejo das populações dos países membros. Foi muito mais uma ação isolada de gestores, de lideranças políticas e empresariais. Os cidadãos europeus foram educados ao longo de cinco décadas a desejarem (ou a rejeitarem) a União Europeia. Já no caso da nossa América nunca foi feita sequer uma consulta pública com seus grupos populacionais sobre os destinos do Mercosul. Falta o povo no Mercosul.

Essa ausência de “gente”, de povo e da cidadania, pode ter sido o erro fatal do Mercosul. Talvez por isso a ideia de uma moeda, retomada por Bolsonaro, não prospere para além de uma piada ou de uma manchete de jornal. O Mercosul nesse sentido continua a ser uma política do discurso, como mostrei há 15 nas minhas pesquisas pela América Latina.