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Por Marcus Alves

A pandemia do Covid-19, que até este sábado (25) já matou 4.016 pessoas, parece ter sido deixada de lado no campo de visão dos brasileiros. Na futilidade tempestiva das redes sociais, o tema do momento é a batalha, apenas iniciada, entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Oito dias após o presidente da República apelar para o poder da caneta e demitir um ministro médico, o país parou  por conta de um embate entre outro ministro e o presidente. O seu nome: Sérgio Moro. Sua biografia foi construída nos últimos anos sobre os escombros de uma elite política de esquerda.  Ele ergueu-se como herói da Lava Jato. Constitui-se a partir de uma racionalidade jurídica, moderna e centrada na impessoalidade e objetividade das leis.

O tema Moro versus Bolsonaro pode parecer, na superficialidade dos fatos, apenas uma briga pelo poder. Mas ele revela, entre outras coisas, a falta de compreensão do brasileiro para uma questão de ordem política mais fundamental. A questão que perpassa toda essa confusão momentânea que o país vive, já há quase três anos, recai sobre uma clássica pergunta formulada, por exemplo, pelo filósofo Norberto Bobbio em torno do governo dos homens ou governo das leis.

O tema nos remete, como bem mostra Bobbio, ao pensamento de Platão e Aristóteles e perpassa muitos outros momentos da nossa história humana, que, claramente, fez uma opção pelo governo das leis. O primado desse modo de governar nos conduz à forma democrática das sociedades ocidentais, o Brasil aí incluído. “O governo das leis celebra hoje o triunfo da democracia”, afirma Bobbio.

No embate entre Bolsonaro e Moro observa-se um conjunto de temas que merecem atenção da ciência política e da sociologia. Entre eles exatamente aparece: governo dos homens ou governo das leis? Nesse debate, a sociedade brasileira precisa refazer urgentemente alguns consensos perdidos há três ou quatro anos atrás. E, penso, não será no embate esquizofrênico de redes sociais e grupos de WhatsApp que o país vai recuperar o seu tempo perdido. Precisa, igualmente, projetar seus escombros de hoje rumo a um mundo pós-pandemia. Não é tarefa fácil, mas sabemos, só acontecerá no jogo virtuoso das instituições democráticas nutridas pelas Leis.

Arte: Antônio Valentim – “Pare!” – Grafite sobre papel iluminado