CAMINHAO

O Brasil vive novamente um grave momento. Avalio que talvez seja mais delicado que o próprio impeachment da ex-presidente Dilma, em 2016. Vou tentar enumerar alguns elementos que possam nos ajudar a compreender esse cenário atual com a forte paralisação dos caminhoneiros. O movimento trouxe esperança e apreensão ao país.

O primeiro item é reconhecer que os caminhoneiros tiveram a capacidade de trazer alguma esperança para este país, que há tempos sofre com a alta de combustíveis. Calados, os cidadãos se resumiam até agora a absorver os preços. O cidadão se espanta no posto de gasolina. Engole seco, abastece porque precisa, e parte para as estradas em seu individualismo de consumidor, isolado e triste.

O caminhoneiro, esse nômade moderno, trouxe alento e disse em sua greve: faça alguma coisa, porque eu estou fazendo a minha parte. E isso pegou de calças curtas tanto o governo, como os seus opositores, localizada numa esquerda clássica. Nem governo nem oposição sabem o que fazer e dizer.

Os caminhoneiros colocaram uma agenda política nova no país, que vai além dos chavões dos últimos dois anos da esquerda clássica, que viveu de duas palavras de ordem: Golpe e Lula Livre. O movimento dos caminhoneiros foi o único grande grito social que pode afetar o governo.

Também exibiu nas BRs nacionais a fraqueza do governo federal. Primeiro governo negligenciou a força do movimento e o presidente largou Brasília e foi entregar carros para os conselhos tutelares do Rio de Janeiro. O esforço era de mostrar que estava tudo tranquilo. O presidente estava naquela hora virando as costas ao problema.

O cenário é então de fragilizada força política, em um ambiente de fraqueza também do Congresso Nacional. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, cometeu seus erros e sumiu da cena. O presidente do Senado, Eunicio de Oliveira, fez um vai-e-vem atrapalhado entre o Ceará e Brasília e no final da noite não disse nada que possa ser levado a sério. Apenas um senador da pequenina Paraíba, Cássio Cunha Lima, fez a pergunta fundamental: onde está o presidente Temer?

A pergunta merece atenção dada a gravidade do problema e nos indica a necessidade de responsabilidade e pressa na tomada de decisão. O governo apelou para as Forças Armadas como quem diz: não posso fazer mais nada. Agora é com eles.

Aí reside minha maior apreensão: neste ambiente de fraqueza das lideranças livres (vale lembrar que a outra metade dos líderes está presa ou amordaçada pela operação Lava Jato) as forças armadas nas ruas se torna uma ação de alta imprevisibilidade e incerteza. O governo afirma que esgotou sua pouca capacidade de diálogo e diplomacia de mercado para resolver o problema. O que nos resta? O uso da força?

As primeiras notícias nos dão conta o próprio governo não sabe como será a ação das forças federais. Pode ser, então, que os caminhoneiros promovam, pela terceira vez em uma curta semana, uma nova desmoralização do governo federal.