fake news

 

Por Marcus Alves

 

Enquanto o país discute o enfrentamento da pandemia do Covid-19, o governo do Estado da Paraíba se esmera em divulgar campanha para as pessoas evitarem fake news. Somente nas últimas 24 horas recebi duas publicações oficiais do governo pedindo para tomarmos cuidados com informações falsas.

A primeira nos remete a uma postagem que circulou no  blog do articulista Flávio Lúcio. Ele teria publicado notícia falsa dando conta de que o Procurador Geral do Estado haveria perdido o prazo para garantir recursos da ordem de R$ 16 milhões voltados à Segurança Pública.

Se contrapondo a essa notícia, indicada como sendo falsa, o governo de João Azevedo exibe um documento assinado por Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, Secretário Nacional de Segurança Pública órgão do Ministério da Justiça (SENASP/MJ). No documento o Secretário informa que o descontingenciamento dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública relativos ao orçamento de 2019 são da ordem de R$ 10,2 milhões e se destinam a valorização dos profissionais de Segurança Pública e enfrentamento à criminalidade violenta.

No oficio 2691/2020, datado em 26 de março deste ano, afirma ainda que se trata de transferência obrigatória dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). “Saliento que, tão logo os recursos estejam disponíveis para transferência ao ente federado, será feita nova comunicação”, completa o documento do Secretário Nacional.

Operação Covidão

A segunda denúncia de fake news recai sobre o radialista Emerson Machado, o chamado Mofi. De acordo com material divulgado pelo governo ele teria publicado notícia falsa entorno de uma operação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que estaria investigando o governador João Azevedo “por suspeitas de corrupção durante a pandemia” do coronavírus. O governo apresenta uma certidão do Ministério Público Federal, de 26 de maio de 2020. O documento afirma um Nada Consta contra João Azevedo Lins Filho.

O radialista alega em sua defesa que republicou a notícia veiculada anteriormente pela rede de televisão CNN, veiculada no dia 19 de maio, também reproduzia no site Política PB. Já o articulista Lúcio Flávio não respondeu, nas últimas 48h, ao questionamento do virtupb.com.br.

A mentira sem contestação

O discurso do radialista, assim como a campanha de esclarecimento promovida pelo governo do Estado, indicam uma luta fratícida, uma espécie de “guerra de guerrilha” estabelecida no campo da comunicação e da informação.

As notícias falsas são parte de uma subcultura do mundo digital de difícil controle atualmente, sobretudo por conta de uma rede de contatos, underground e também pública, com a qual elas mantêm ligação.  Movem um terreno pantanoso, no qual o cidadão fica sem os devidos instrumentos de estabelecimento do sentido do que é verdadeiro ou falso. Parte daquilo que há alguns anos atrás o sociólogo Guy Debord chamava de sociedade do espetáculo, as notícias falsas embaralham a fronteira entre o real e o virtual ou o ficcional.

Notícia falsa não é uma novidade desde século XXI e o jornalismo sempre conviveu de variados modos com ela.  O novo agora é sua disseminação massiva por meio de um comportamento quase doentio e repetitivo. Uma atitude imitativa que tenta estabelecer a mentira como verdade cristalizada – na linha mesmo de fazer aquilo que Debord tão bem tipifica como uma das características da sociedade do espetáculo: a mentira sem contestação.

Outras características desse modelo social seriam a incessante renovação tecnológica (na qual aliás a fake news se nutre o tempo todo), o segredo generalizado e o presente perpétuo, entre outras.

Nessa ambiência social é que podemos observar a existência de um conjunto de grandes interesses nos usos da fake news que envolve comportamentos psicológicos, políticos e econômicos. Em decorrência desse fator é que se estabelece a luta em torno do sentido de verdade a partir, inclusive, de um aparato jurídico estatal – como está fazendo o governo do Estado da Paraíba que, por meio da Secretaria de Comunicação informa, já está “tomando medidas judiciais”.

O jornalista Nonato Bandeira, secretário de Comunicação do governo, também informou que já foi enviado “longo relatório”, por meio do Consórcio Nordeste, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso Nacional que investiga as notícias falsas. Como vemos, a luta política pelo estabelecimento da verdade está longe de acabar nessa sociedade do espetáculo.

Imagem: Reprodução da campanha do Governo do Estado