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O centro histórico de João Pessoa vive atualmente um momento único. Estou pensando em um tipo de ação que começou a ganhar novos contornos no ano passado e que pode abrir novos caminhos para aquele território – que sofreu certo abandono, público e privado há algumas décadas. O deslocamento da riqueza econômica do Centro não é uma condição exclusiva da cidade de João Pessoa. Foi um fenômeno experimentado em muitas cidades fruto, inclusive, de um processo de globalização intenso e que deixou muitas marcas. Aqui também vivenciamos uma descentralização e a vida produtiva se deslocou para novos territórios. Em nosso caso, as praias e a região sul – sobretudo as Mangabeiras e os Bancários -, foram os principais beneficiados por esse movimento. Aliados a estas áreas, podemos pensar também os dois eixos urbanos que são as Av. Epitácio Pessoa e Beira Rio, cujas residências foram se transformando em fachadas comerciais, lojas, escritórios e oficinas de serviços.

Essa vida econômica nestes territórios não foi inventada agora. Não é uma atividade produtiva nova que veio se agregar em João Pessoa. Tinha na verdade uma origem primeira que repousava em muitas esquinas e dobras urbanas do Centro Histórico, que pelo menos até os anos de 1990 era o lugar por excelência de sua maior expressão. Quem nasceu e viveu em João Pessoa entre os anos de 1950 e 1990 seguramente tinha como experiência citadina corriqueira uma volta ao Centro para resolver seus problemas domésticos e ou políticos. Quando os nossos pais diziam “vamos ao Centro” era uma garantia de passeio, de uma aventura, pela Duque de Caxias, Praça João Pessoa, Rua da República ou Beaurepaire Rohan, que por economia linguística e desinformação, nos acostumamos a chamar apenas de B. Rohan.

Esses locais tinham o brilho do consumo que hoje respousa em shoppings e redes de supermercados. Um consumo que foi se ausentando do Centro.  Tal deslocamento gerou um aspecto de depressão econômica e cultural do Centro e o levou às condições que conhecemos em nossos dias: prédios abandonados, falta de vida social e econômica. Diria, sem medo de errar, que quase duas gerações desconhecem as riquezas arquitetônicas e históricas do território que deu vida e sentido à cidade de João Pessoa.

Mas, espero, que isso esteja em vias de mudar – dado que vamos nos acostumando, de forma lenta ainda, a ver atividades acontecendo neste território. Tem um aspecto de resistência que permanece no Centro Histórico por conta de atividades de coletivos e pequenas empresas, sobretudo no Varadouro. Apenas para lembrar, o Espaço Mundo conta agora com nove anos de instalação ali. Resiste, junto com vários outros, como a própria Academia Paraibana de Letras e o Centro Cultural São Francisco.

Alie-se a isso o fato de que, mais recentemente, a própria Prefeitura de João Pessoa acordou para o lado histórico da cidade e iniciou um conjunto de atividades chamadas de Anima Centro: na verdade é um processo de integração de equipamentos culturais e arquitetônicos revitalizados pelo poder local. Um roteiro turístico/cultural que parte da Lagoa do Parque Sólon de Lucena, passa pelo Pavilhão do Chá, Casarão 34, Centro Cultural Casa da Pólvora e Hotel Globo.

Equipamentos públicos que vêm mantendo regularmente um conjunto grande de atividades culturais capazes de formar um público novo para o Centro Histórico. Neste domingo (29) terá um show do cantor e compositor Escurinho e o grupo Natureza Viva. Show aberto ao público no Monumento histórico da Pólvora. Lá também vem ocorrendo sucessivas exposições de artes visuais como as de Jurandir Maciel, Samuel Góes, Vanessa Cardoso, Rose Catão, Josenildo Suassuna. No Hotel Globo toda sexta pode-se contar com o projeto Pôr do Sol, com saraus literários e cantos musicais. Lá já passaram performances recentes de Zezita Matos e Jessier Quirino.

Do ponto de vista do poder público, o Anima Centro dá o tom cultural do território. E isso reforça o esforço de resistência dos coletivos e demais instituições públicas e ou privadas instaladas ali. Mas o bom momento do Centro Histórico também repousa sobre uma esperança de mais vida com a proximidade da entrega da Villa Sanhauá e do novo Conventinho. A Villa, um conjunto de 17 residências e seis pontos comerciais, vai forçar ocupação permanente de moradores na região, e claro, trazer mais circulação de gente viva. Isso faz falta ao Centro Histórico. O novo Conventinho deverá abrigar a Biblioteca Municipal da Cidade de João Pessoa e um Centro de Artes e Cultura, confirmando a vocação tradicional dos territórios históricos das capitais brasileiras.

Não vou citar o volume de recursos utilizado nestas obras. As cifras econômicas depositadas nas obras destes equipamentos estão sempre acima dos milhões de reais. Uma vez abandonado um território, recuperá-lo é muito dispendioso. Mas quero chamar atenção para a decisão política do prefeito Luciano Cartaxo em depositar energias, máquinas, homens e mulheres para tocar uma obra física que se desdobra sobre o imaginário da cidade e renova sua simbólica de renascimento.

O poder municipal fez a sua parte em uma área que nenhum governante atuou nos últimos anos. O Centro Histórico de João Pessoa foi, durante décadas, objeto de um discurso político em defesa de uma reforma e revitalização. Ali era estuário de uma economia discursiva que sobrevivia de promessas. Agora, me parece, concretamente, que a ação e a atividade do poder público municipal começaram a tomar posse do território. Vem daí, talvez, o momento especial pelo qual passa o nosso Centro. Que ele seja renascido para a gente nova possa ver o que um dia já viu a gente mais velha.

 

Foto: Arquivo Marcus Alves