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A população da cidade de João Pessoa finalizou esta semana ainda incrédula com uma situação incômoda: a denúncia feita por uma vereadora segundo a qual um grupo de senhoras moradoras do Cabo Branco teria lhe pedido para retirar do ambiente daquela praia um projeto de inclusão com pessoas portadoras de deficiência. De acordo com a vereadora, as moradoras acusavam o projeto de estar tornando feia a praia e deixando sujeira no ambiente.

É um discurso carregado de muito preconceito; eivado de desumanidade por querer isolar os deficientes da prática esportiva ou do simples banho de sol que algum Deus nos deu. Os movimentos sociais e pessoas que abraçam a causa deram uma demonstração de solidariedade e foram às ruas em defesa do projeto, dos deficientes e do seu direito ao mar, cujas águas salgadas tem a democrática afeição por todos os corpos – independente da cor, da beleza, da gordura ou do dinheiro na carteira.

Mas o problema não parece parar aí. É que a denúncia da vereadora está sendo questionada por uma ausência muito simples: ela não deu nomes, nem mostrou ainda nenhuma imagem das moradoras que reclamaram do projeto e requeriam a praia para sua classe social. Nas redes sociais cresce esse questionamento. Quem duvida pede que a vereadora torne público os nomes ou as imagens de tais senhoras, que seguramente não representam o sentimento generoso de uma maioria da população da cidade de João Pessoa.

Muitos creditam a denúncia da vereadora aos interesses políticos, dado que a eleição de 2020 já está na pauta. Não deixa de ser uma interpretação ingênua, na linha de creditar à política todos os males do homem. Preconceito seja de cor ou de raça, é coisa afeita ao ser humano e não passa necessariamente pela categoria da política. A mentira vai no mesmo caminho.

Se as tais senhorinhas bronzeadas existem de verdade elas pensam de modo errado menos por conta da política e mais por uma deformação de sua educação. E, o que é pior: elas podem ter passado isso para seus filhos e seus netos. Mas a partir disso não se pode julgar todos os moradores do Cabo Branco, de Manaira ou Tambau. Recomendaria cautela e cuidado no trato com a problemática, reveladora, claro de muito preconceito, mas não limitado a um conjunto de bairros – a onda neofascista pode repousar também em ambientes populares.

Se estas senhorinhas bronzeadas não existem, ou se sua existência física não conseguir ser comprovada (o que é mais factível), aí a vereadora deu uma bola fora, mas prestou – por vias erradas – um excelente serviço à cidade de João Pessoa. Ao ouvi um discurso de preconceito a cidade foi às ruas; as pessoas foram abraçar aqueles que mais precisam de solidariedade nestes tempos de intolerância. E tem muita gente aproveitando este tempo de nuvens obscuras para tirar do armário seus esqueletos do ódio, do preconceito e da irracionalidade pragmática.

Seja qual for a situação real, a cidade de João Pessoa parece não abrir mão de uma coisa: sua história e tradição de ser uma cidade progressista e que abraçou, já há muitas décadas, a modernidade. É preciso combater, na praia ou em suas Mangabeiras, quaisquer ideias que possam dar margem à banalidade do mal.