HABENHORST

“Você acha que um intelectual está, obrigatoriamente, afastado do mundo?”. A pergunta é feita por um personagem que a psicanalista e escritora Julia Kristeva criou em seu romance Os Samurais cujo cenário é a agitação estudantil em torno do Maio de 68, na França. A pergunta do romance, publicado originalmente em 1990, revela uma problemática, real ou literária, que acompanha várias gerações de estudantes e intelectuais em suas aventuras.  A pergunta poderia ganhar novos contornos em nossos dias e deixar marcas no ambiente do Fórum Universitário que a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) organiza para o próximo dia 20, às 9h, no auditório da Reitoria.

 

Julia Kristeva não vai aparecer por aqui. Mas os diálogos e dilemas de seus personagens poderão ecoar no debate que a professora Maria Alice Nogueira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vai desenvolver. Conhecida por seus trabalhos de sociologia da educação, ela vai enfrentar o tema: “Revisitando o conceito de capital cultural algumas décadas depois”.

 

Será o primeiro Fórum Universitário do ano 2019. Pela UFPB já passaram nomes de perfis os mais diversos como a economista Tânia Barcelar, o escritor Bráulio Tavares e a escritora Maria Valéria Rezende. O Fórum, cujos temas nascem da própria comunidade acadêmica, tem como uma de suas marcas exatamente a diversidade de olhares. “São temas de natureza trans ou interdisciplinar relacionados com a ordem do dia e que necessitam de uma reflexão por parte da UFPB”, avalia o professor Eduardo Rabenhorst (foto), coordenador do Fórum.

 

Além de discutir temas específicos externos ou internos à realidade da Universidade, o Fórum também reflete sobre eventos marcantes para a história da sociedade nestes últimos séculos. Foi o caso do Fórum do ano passado que se dedicou a pensar o próprio Maio de 68, tematizado pelo romance de Kristeva. “A gente tem neste ano uma série de acontecimentos que a comunidade pode querer refletir”, acrescenta Rabenhorst citando como exemplo o Centenário de Jackson do Pandeiro. “A gente trabalha com essas efemérides também”, completa.

 

Agora, nos anos 2000, assim como na década de 1960, os debates parecem mobilizar interesses de muita gente ávida pelo debate de ideias. O coordenador do Fórum Universitário lembra que este foi o caso do último Fórum realizado no ano passado que discutiu “Educação e Cárcere”. “O debate trouxe um público grande e diversificado das áreas de direito, educação, serviço social, policiais militares e agentes penitenciários. Para nós isso tem sido surpreendente. A gente imaginava ter um público mais reduzido, em torno da própria Universidade, e a experiência vem sendo ampliada e alcançou o público externo”, comenta Rabenhorst.

 

A fala do professor Eduardo Rabenhorst é pontuada por um sentimento de que a Universidade está retomando seu protagonismo e diálogo com a sociedade e o Fórum Universitário aparece nesse cenário como um instrumento fundamental, segundo ele mesmo: “O Fórum tem um pouco esse papel de aproximar as pessoas da Universidade”.

Foto: Marcus Alves